14 de abr de 2009

S de....



S de SIM, vamos tentar escalar! A ventana era bem meia boca, uma brecha entre dois dias de vento e chuva. Mas a 5ª feira prometia ter, mais ou menos, 12 horas de tempo bom com o vento moderado. E depois de quase 20 dias com neve, chuva e vento, essa era nossa chance!

S de SINTONIA. Não chegou a ser uma parceria, mas a sintonia estava rolando. Eu e a Gabi tínhamos ido ao Passo Superior juntas e com toda a confusão que rolou, acabamos criando uma sintonia e amizade, o que nos levou a querer escalar juntas.


S de SENDERO, que significa trilha em espanhol. A trilha já estava marcada em minha mente, mas era a primeira vez que ia sem alguém que a conhecia melhor do que eu. Estava inquieta. O primeiro glaciar passou sem muito problema, mas o segundo glaciar se mostrava bem diferente. A ponte sobre o primeiro rio havia caído e demoramos um bom tempo buscando um novo caminho. O vento era tanto que foi me empurrando bem sem que eu percebesse. Ao me dar conta, estávamos bem mais a direita do que deveríamos. O glaciar perto de Niponinos (um bivaque avançado) se encontrava com muito mais gretas, nos mandando para lá e para cá, num vai e vem para desviar delas. Depois de Niponinos, a subida até o nosso bivaque (o mesmo do Claro de Luna), demorou 2 horas e 10 minutos, indo num ritmo tranqüilo e conseguimos chegar ali ainda com luz, 8 horas depois de ter saído de Chalten.

S de SATISFAÇÃO por estar na montanha, dormindo sob as estrelas e o olhar constante do Cerro Torre e seus satélites. Satisfação de ir dormir tranqüila e na paz que só as montanhas nos trazem.

S de SERENA. Foi como a noite foi. Depois de oito horas de caminhada com vento forte, a escuridão trouxe consigo a calmaria de uma noite sem vento e relativamente quente. O bivaque, meio torto e com pedras no chão não impediram uma noite de um sono tranquilo.

S de SUBIR. O despertador nos acordou as 3:30 da manha. Comemos, organizamos as coisas e uma hora depois começamos a aproximação para a base da via. As duas horas e meia previstas se transformaram em quatro de muito toca pra cima. O vento, o frio e a escuridão tornaram tudo mais complicado. Foram diversas passadas de escalada, muito cascalho e neve para subir.

S de SURPREENDER. As informações que tínhamos era que não necessitávamos piquetas ou grampons. Mas as condições em constante mudança nessas montanhas se demonstraram diferentes e nos surpreendeu uma neve congelada e muito escorregadia. Ou seja, muitos degraus foram cavados para podermos subir. Como a Gabi tinha mais dificuldade e andava mais devagar do que eu, eu ia na frente com uma pedra cavando os degraus e ela vinha atrás com a única piqueta que tínhamos. Me surpreendi com minha tranqüilidade de subir com tênis, sem grampons, sem piqueta e cavando os degraus com uma pedra.

S de SURREAL. A base da via era na verdade lá em baixo na face leste. Nós subimos pela face oeste até o colo entre a Saint Exupéry e a de la S, onde começamos a escalar. Nesse exato ponto, o frio e o vento eram tão intensos que cogitamos desistir, mas persistimos pois sabíamos que a face leste seria mais protegida do vento e estaria com sol. E assim, parti para a primeira enfiada. Minha suspeita estava certa e parei no primeiro platô com sol e sem vento para tirar a Gabi do frio. A diferença de temperatura era surreal e pela primeira vez no dia começamos a relembrar o que era se sentir bem na montanha.

S de SERÁ que é por aqui ou por ali? Depois de uma curta e fácil enfiada, chegamos na base das enfiadas finais para o cume. Ali, víamos a aresta nordeste, uma chaminé e fissuras à direita. Nossas informações diziam que as fissuras era a melhor opção, então comecei a escalar ali mesmo. Foram 70 metros de fissuras, fendas, off widths, chaminé, alternando boas proteções com outras mais duvidosas até que parei em um platô e coloquei a Gabi em segurança.

S de “SAIR PELA TANGENTE”. Dessa reunião, tentei ir pela direita, mas resolvi sair pela tangente e pegar a fenda da esquerda. Uns dois metros de artificial me levaram a base de uma fissura de dedos de 6ª+ (grau francês), a qual escalei e protegi como consegui. A cada passada pensava que a via era para ser um 5+, mas como já estávamos alto, quase no cume, continuava a subir.

S de “SINTO MUITO”, mas a fissura acabou, os móveis acabaram e o tempo se esgotou. É hora de descer!

S de SUSPENDER a escalada. Estávamos a uns 50 metros do cume, mas não sabia mais por onde ir. Tentei fazer um pêndulo que me levou a fissuras ainda mais difíceis, esparsas e não tão boas para proteger, nada atrativo.

S de SABEDORIA. Nem sempre podemos chegar ao cume. O importante é ter a sabedoria e tranqüilidade para poder dar meia volta e descer com calma, pois o caminho até Chalten é longo. A montanha estará aí para que possamos, mais uma vez, tentar subi-la.

S de SINISTRO que foi a volta. A chuva e o vento começaram ainda antes de chegar em Polacos, a mais ou menos 25 km de Chalten. Não podíamos parar, pois tínhamos que chegar a Chalten ainda essa noite. Cruzar o glaciar com um vento ainda mais sinistro do que quando viemos foi uma aventura que não gostaria de passar de novo. Tombos, tropeços e medo de cair em gretas nos dominavam, mas não ousávamos parar. Cada segundo sem se movimentar era tempo suficiente para que o frio se apoderasse de nosso corpo. Além disso, queríamos cruzar o glaciar ainda com luz e apenas nos faltavam 1 horas e meia.

S de DE LA S... voltarei, um dia e quizas haré la cumbre!!!

S de SOUT no SEBA. 23 horas depois de ter acordado no bivaque, chego de banho tomado, mas ainda encharcada no Sebá, para a última noite de Stout em Chalten.

S de SAUDADE que já começou a bater sem nem ter ido embora. Saudade desse pueblo chiquito que me conquistou no momento em que cheguei. Tchau, Chalten, até a próxima temporada.

La Brecha, a escalada da Media Luna


La brecha ou ventana é como os escaladores e moradores de Chalten chamam uma janela de bom tempo. É quando os ventos uivantes e as chuvas que caem diante de céu azul dão uma brecha e o sol aparece e nós, escaladores, conseguimos escalar. Na Patagônia é assim, tudo depende da ventana e de quanto tempo ela irá durar para então moldarmos nossos planos de qual montanha e qual via subir.
Havia uma janela de bom tempo para o dia 23 de janeiro, mas era curta e ainda chovia pela manhã; realmente não era muito animador subir. A janela era tão espremida que Sblen e Bernardo não queriam subir, mas eu queria tentar de qualquer jeito, algo me dizia que tínhamos boas chances de fazer cume. O tempo foi passando e minha vontade de subir aumentava na medida que via diversas pessoas caminhando com mochilas pesadas na direção das montanhas. Mas nós ficávamos na cidade.

Eis que surge o Jorgito (um escalador de Bariloche que estava em Chalten desde outubro) na nossa vida que nos estimulou a tentar mesmo com pouco tempo de janela. Já era tarde (lá pelas 7 da noite) e não tínhamos mais tempo de subir com as coisas para dormir perto da via, a única estratégia que nos restava era fazer um longo dia e sair de Chalten e voltar a Chalten numa tacada só. Isso significava que teríamos que andar 25 km, escalar 500 metros de via e voltar os 25 km até Chalten, uma empreitada nada fácil e nada encorajadora. Mas finalmente meus parceiros foram convencidos a subir e começamos os preparativos.
Não dormimos muito até acordar com o despertador a 1:30 da manhã. Meia hora depois já estávamos com as mochilas nas costas, iniciando a trilha que nos levaria à Media Luna, nosso objetivo dessa vez.
Para chegar lá passamos pelo acampamento Bridwell, cruzamos a tirolesa no Rio Fitz Roy, subimos a floresta, cruzamos o riacho, descemos a morena para o primeiro glaciar, saímos do primeiro glaciar por uma outra morena, chegamos no segundo glaciar, cruzamos os dois rios desse glaciar, andamos por mais morenas, mais glaciar, e mais morenas até que chegamos no bivaque Niponinos cinco horas e meia depois de ter saído de Chalten, ou seja, eram 7:30 da manhã. Ufa!

Mas não tínhamos muito tempo para descansar, pois ainda tínhamos mais uma hora e meia até a base da via e dessa vez por uma trilha que não conhecíamos. Comemos rapidamente um café da manhã com sopa e continuamos nosso caminho, que seguia por morenas instáveis até atingir o glaciar que contorna a base da montanha. Esse glaciar dá o nome à essa agulha com sua forma em | “media luna” que circunda a sua base.

Já na trilha avistamos que havia duas cordadas tentando a mesma montanha, uma seguia pelo off width da direita (a linha original da via) e outra pela linha de rapel, à esquerda. Decidimos subir pelo meio para não ficar atrás de nenhuma cordada e porque de acordo com o Jorgito ali era fácil e a rocha sólida.

Começamos a escalar um pouco depois das 10 justamente seguindo a linha recomendada pelo Jorgito. Porém, não sei se nossa concepção de rocha podre é diferente da do Jorgito ou se nós três nos confundimos em nosso “portunhol” e entendemos errado o que ele nos disse, porque ali a rocha era muito, mas muito podre.

A previsão dizia que iria chover no início da tarde, portanto nossa estratégia foi deixar o Bernardo guiar tudo, uma vez que ele guia mais rápido do que eu ou Sblen. Eita exercício de humildade! E assim ele seguiu pelas rochas podres e íngrimes, se puxando pelos pitons que de tão frágeis, um chegou a entortar com seu peso e protegendo onde podia e conseguia com peças não confiáveis. Essa era a concepção de fácil para o Jorgito?! Foi inevitável, uma pedra caiu e me atingiu bem na cabeça. Por sorte ela acertou bem o meio do capacete, me deixando muito assustada, mas sem nenhum dano físico.

Corríamos contra o tempo para ultrapassar os escaladores da direita e os da esquerda e para evitar a chuva que estava prevista. Subimos sem nem pestanejar nessa primeira parte da via até que tivemos certeza que estávamos na frente das outras cordadas. Até então nossa visão do Oeste estava obstruída pela própria parede da Media Luna, mas ao chegarmos ao ombro isso mudou e eis que surge ele, o Torre, com seu aterrorizante e impressionante cogumelo de gelo sobre um cume de pedra. As nuvens passavam por toda sua parede em uma velocidade que diziam que o vento estava mais forte do que gostaríamos, mas por incrível que pareça nos encontrávamos abrigados, pois o próprio Torre bloqueava o vento que vinha do Oeste e nos deixava numa posição privilegiada.

Do ombro, saíram umas das melhores enfiadas de escalada que já fiz na minha vida: um sistema de fendas incríveis que cortavam um lindo granito liso e branco. Mas a parte mais difícil da via ainda estava por vir e Bernardo cismou em ir por um lado onde não dava para proteger. A tensão foi grande e aumentava com cada metro que ele ganhava, escalando um difícil off width.
Quase não respirávamos, pois sabíamos que um acidente ali seria um problema sério. Com dificuldade constante e impossibilidade de proteger, Berna finalmente resolveu desescalar, o que não foi nem um pouco mais seguro ou fácil, mas com sua técnica apurada, ele chegou com segurança na parada onde estávamos. Ofereci para guiar no lugar dele, mas fiquei feliz quando ele disse que continuaria, afinal, a fenda apesar de protegível e por isso mais segura, ainda era muito difícil.

Mas enfim chegamos a “La Cumbre” (o cume) às 3:30 da tarde.
O tempo estava lindo, um céu azul, o vento tranquilo, e a chuva prevista nunca chegou. De um lado, o imponente Torre voltou a aparecer e do outro o majestoso Fitz Roy e as montanhas ao seu redor nos felicitavam. As fotos tradicionais de cume foram tiradas e abraços dados, a felicidade era completa. Mas vida de escalador na Patagônia é estar em constante movimento e depois de um rápido lanche descemos, pois ali estávamos exatamente na metade do caminho e ainda tínhamos muito terreno para percorrer até nossa barraca, exatamente 500 metros de rapel e mais 25 km de caminhada.

Chegamos de volta na base 7 horas depois de ter começado a escalar. O longo caminho de volta nos esperava e descemos escorregando na neve, no cascalho e nas morenas até Niponinos. No meio do caminho um outro susto: Bernardo que descia na frente, cai e rola, quase dando cambalhotas, uns 3 metros. Congelei. Da maneira que ele caiu pareceu que tinha torcido o tornozelo ou joelho e mesmo não estando mais na parede, um resgate ali ainda era muito complicado. Durante uns 5 minutos de angústia esperamos ele se recuperar da dor e da tonteira para que nos pudesse dizer que não havia torcido nada, “apenas” havia batido o joelho muito forte em uma pedra. Foi nesse exato momento que percebi que meu joelho começava a doer. Como já tenho esse problema há tempos, sabia que era algo que iria me perseguir durante todo o caminho e que não tinha muito que fazer além de tomar um antiinflamatório e prosseguir.


Em Niponinos, cogitamos parar e cozinhar algo mais substancial para comer, mas ainda tínhamos um longo caminho pela frente, 23 km, e decidimos continuar para aproveitar o máximo de luz possível. Andamos com luz do dia até cruzar a tirolesa e só as ultimas duas horas de caminhada foram com headlamp. Essa foi a pior parte de todo dia, o cansaço era monstruoso e todas as partes do corpo doíam. Estávamos também mais pesados, pois trouxemos todos os equipamentos que se encontravam escondidos em Niponinos de volta a Chalten. Meu joelho reclamava de cada passo e não conseguia mais andar rápido. Quase dormimos ao sentar por alguns minutos para beber água.

Chegamos em “casa” a 1 da manha, depois de 23 horas de exercício intenso. Eu estava anestesiada de tanto cansaço e fui direto dormir, enquanto que os meninos ainda comeram alguma coisa.

Parando para pensar, o dia foi perfeito e deu tudo certo, a chuva nunca chegou e nós fomos abençoados com um dia maravilhoso e uma escalada incrível num dos vales mais bonitos que conheço, mas não gostaria de fazer uma empretiada dessa de novo. Dormi tranquila e feliz, tendo feito a Media Luna na meia lua e a Claro de Luna na lua cheia. Só posso dizer puooorrraa, muito maneiro!!!

8 de abr de 2009

Superação de Limites - Claro de Luna


Cheguei em Chalten derrotada com os dois dias de porteio que eu e Sblen fizemos. Uma notícia boa, mas nem tanto, me esperava e foi só ver o brilho nos olhos do Berna para saber que tínhamos uma janela pela frente. O problema era que a janela requeria que a gente começasse a subir no dia seguinte e apesar de minha mente e coração dizerem sim, meu corpo dizia não!

Fui dormir com a grande dúvida se eu ia ou não escalar. A janela era boa, muito boa! Era, na verdade, uma janela perfeita para tentar a Claro de Luna, na Saint Exupéry, uma via de 800 metros com dificuldade constante de 6º, muitos 7º e crux de 7c. Mas meus pés reclamavam das bolhas e meu corpo inteiro doía. Será que eu iria conseguir escalar desse jeito? Minha mente fervilhava com essa questão, mas não demorou muito para o cansaço vencer e eu cair em um sono profundo. No dia seguinte, não tive dúvidas que iria tentar. Não sabia se ia conseguir ou não, muitas coisas me diziam que não, mas queria tentar de qualquer jeito. Conversei com o Berna sobre isso e ele topou subir comigo assim mesmo. Sblen, com os pés destroçados de tantas bolhas sinistras, não iria com a gente.

Arrumamos as mochilas e partimos para Bridwell, um acampamento a 2 horas de Chalten. Minha mochila pesava muito no meu corpo cansado. Não é que ela estivesse muito pesada, afinal o Bernardo estava com uma mochila bem mais pesada do que a minha, mas eu estava acabada. Mas chegamos em Bridwell, comemos e dormimos para sair no dia seguinte para o próximo bivaque, no pé da Saint Exupéry.

A mochila foi muito bem arrumada para começar o dia com a tirolesa sobre o Rio Fitz Roy. O Rio adora engolir equipamentos nas triolesas; um amigo perdeu a sapatilha e a headlamp e eu não queria perder nada. Depois da tirolesa, uma subida tranqüila pela floresta até que começamos a descer para o glaciar através de morenas (elas de novo!).

O primeiro glaciar passou rápido. As gretas eram bem visíveis e Berna conhecia bem o caminho e depois de muito pula greta e sobe e desce, a gente chegou na morena que liga esse glaciar ao segundo glaciar (o da Adela). Nesse segundo glaciar, que leva ao vale do Torre, tem o desafio extra de cruzar dois rios, mas o primeiro não nos apresentou dificuldade nenhuma. O segundo rio era fundo e com correnteza forte e começamos a jogar pedras em seu curso para tentar criar um lugar onde botar o pé, mas todas as pedras, independente de seu tamanho, eram levadas pela corrente. O jeito foi pular rapidamente para o outro lado, tentado molhar apenas um pé.

O vale do Torre está incrustado entre o cordão do Fitz e o cordão do Torre e é por ali, nessa meiuca de montanhas maravilhosas, que percorríamos os últimos quilômetros de glaciar e morenas para chegar a Nipo ninos. Nipo ninos é um bivaque que foi criado por acaso por uns escaladores que não conseguiram achar o bivaque buscado. O que existia até então era o bivaque noruegos para quem ia escalar no cordão do Torre (Torre, Egger, Standart e Media Luna) e o bivaque polacos para quem ia escalar no cordão do Fitz (de la S, Saint Exupéry, Raphael, Desmochada, Silla e Poincenot). Mas os escaladores ficaram no meio, lá embaixo no vale, criando o bivaque Nipo ninos (ni polacos ni noruegos). Depois de comer e pegar os equipamentos que tinham sido deixados aqui pelo Berna, nos pusemos a andar novamente, em direção a nosso destino: um bivaque na base da Saint Exupery. Agora sim minha mochila estava pesada.

A subida demorou duas horas, mas finalmente chegamos ao final da nossa jornada desse dia. Estávamos bem próximos à base da Claro de Luna e o tempo estava perfeito: céu azul e (incrivelmente) sem vento e ainda tínhamos tempo de cozinhar, comer e arrumar as coisas com luz. Demos uma boa olhada na linha da via, e nos colocamos dentro de nossos sacos de dormir para uma noite sob o olhar atento do Cerro Torre e seus satélites. Mas que lugarzinho lindo!

O despertador tocou às 5 horas da manhã. Nossa noite não havia sido das melhores, pois as diversas pedrinhas presentes no chão não deixavam nossa “cama” tão confortável quanto gostaríamos. Mesmo sem vento, o frio era grande e sair do calor do saco de dormir era o primeiro desafio do dia. Logo começou a clarear e pudemos desfrutar de um lindo amanhecer, um dos mais bonitos que já presenciei. Estávamos alto no vale do Torre e era ele mesmo, imponente do outro lado do vale, que nos mostrava em seus íngrimes paredões rochosos os primeiros raios de sol.


Engolimos nosso café da manhã e fomos para a escalada. Chegamos na base e já tinham duas cordadas na nossa frente, éramos a terceira cordada na mesma via. Longe de ser o ideal em um lugar comum, essa colocação pode ser um pesadelo na Patagônia. O casal que estava na frente escalava relativamente rápido, mas demorava horas nas paradas e nos procedimentos. Já na primeira parada da via, ficamos mais de uma hora esperando no frio. Eu e Bernardo nos entre olhamos e falamos: vamos para o cume!

Revezamos algumas poucas enfiadas. A via era bem difícil e como precisávamos de agilidade, Bernardo era a pessoa indicada para guiar. Além disso, meu cansaço era monstruoso, afinal era o 5º dia seguido de muito exercício. Só que, a responsabilidade de carregar a mochila era, obviamente, do participante (eu na maior parte da via) e nossa mochila não estava nada leve. Na verdade, o peso era tão grande, que na segunda parada, jogamos quase 2 litros de água fora e subimos apenas com 2 litros para nós dois. Mesmo assim, todos os casacos e outras roupas de frio, mais a comida e a água ainda deixavam a mochila um trambolho grande e pesado. E assim eu subia, lutando contra a gravidade que me puxava para baixo em cada movimento em que eu tinha que levantar o meu peso e o da mochila.


Os metros e o tempo foram passando, mas o casal não andava mais rápido e nossa paciência foi se esgotando. Sem dúvida nenhuma, nós éramos a cordada mais rápida da parede e estávamos em último lugar e não havia oportunidade de passar. Já havíamos escalado 2/3 da via e eram 4 e meia da tarde, hora que pensamos que estaríamos no cume, quando uma cordada ofereceu para a gente passar e a outra decidiu descer. Novamente, eu e Berna nos olhamos e sem nem pestanejar falamos que íamos para o cume. Descer com o tempo bom do jeito que estava não era uma opção para a gente.

Olhamos para cima e pela primeira vez no dia vimos a parede somente para a gente. Não hesitamos e escalamos com muita eficiência, “comendo pedra” e passando por lances sensacionais que faziam do nosso dia uma experiência ainda mais incrível. Subimos quatro enfiadas enquanto que o casal que nos retardaram tinha subido apenas uma, ainda bem que os passamos. Eu não cogitava mais em guiar, o lance era subir rapidamente para aproveitar toda a luz que tínhamos. Além disso, a fadiga tinha tomado conta do meu corpo. Várias vezes, Berna me ajudou com a corda, quase me rebocando em algumas passadas para que eu conseguisse subir mais rápido. Nunca havia escalado assim, sendo rebocada, mas ali era necessário, pois rapidez e eficiência na Patagônia são sinônimos de segurança.



Chegamos ao cume as 7:30 da noite, muito felizes! Dali, a vista era maravilhosa: ao leste, Chalten nos dava as boas vindas; ao Sul, a pequena de La S nos avisava que estávamos ainda bem alto e que isso era metade do caminho; ao Norte, o Fitz imperava sobre todos nós, e ao oeste, o vale do Torre nos chamava de volta. Mal ficamos no cume, pois tínhamos um longo caminho até o bivaque e queríamos aproveitar cada segundo de luz.

Rapelamos como escalamos: com eficiência e segurança. Eu abrindo o rapel e Berna me seguindo com a mochila (por fim, me livrei dela!). Chegamos na base do rapel e escureceu, eram 11 horas da noite. Ainda tínhamos um bom caminho desconhecido até o bivaque, que percorremos com segurança, montando rapeis para passar as partes mais complicadas e descendo cada metro com muita atenção.

Chegamos ao bivaque a 1 da manha, exaustos e felizes. No dia seguinte, voltamos os 20km até Bridwell. A ideia era passar reto e ir para Chalten, mas a barraca nos “engoliu” e resolvemos ficar por ali mesmo e continuar o caminho no dia seguinte. Vimos as fotos de todas as aventuras até então, relembrando momentos preciosos e engraçados enquanto escutávamos e cantávamos Legião, Paralamas e outros sucessos da década de 80 no Ipod do Berna.

A sensação era maravilhosa: havíamos escalado uma via incrível que já foi considerada uma das 10 melhores do mundo e tudo tinha dado certo. Aprendi muito sobre superação, pois realmente não sabia se iria conseguir fazer essa escalada pelo estado desgastado em que me encontrava, mas minha determinação falou mais alto e consegui ir além dos meus limites. Aprendi muito sobre parceria na montanha, pois não teria conseguido se não fosse a ajuda do Berna que além de ter carregado mais peso, me rebocado no final da escalada, me estimulava a continuar com sua determinação, energia positiva e vontade de chegar ao cume. Valeu, Berna!!!!!!!!!

Equipo:
Friends: 1 jogo de camalots até o camalot 4 , (incluindo os pequenos e o 00) e repetindo do 0.75 até o 3.
1 jogo de Nuts
2 cordas duplas
16 costuras
Cordeletes para abandono

6 de abr de 2009

Saindo da Zona de Conforto, Porteio ao Passo Marconi

Frio na barriga. Essa era a sensação que me dominava. As empresas de turismo de aventura da região vendem pacotes para a volta ao gelo continental e por isso contratam pessoas para levar parte da comida e equipamento para o meio do percurso antes deles irem, indo assim mais leves. Dessa vez, a gente, eu e Sblen, aceitamos um porteio para levar equipamentos e comidas para o Passo Marconi. O caminho além de longo e desconhecido, tinha uma boa parte em glaciar, terreno que não dominamos: frio na barriga.

Percebi que Sblen sentia a mesma apreensão que eu, mas não ousávamos em desistir, pois queríamos fazer isso e precisávamos da grana. Pegamos as coisas do porteio na empresa, minha mochila tinha 17kg e a do Sblen 20kg e ainda estavam sem os nossos equipamentos individuais e nossa comida... Fomos ao nosso acampamento e re-arrumamos as mochilas, agora com as coisas que precisávamos para cruzar o glaciar com segurança, comida para dois dias e equipamentos para passar a noite. Minha mochila, no final, tinha cerca de 25 kg e a do Sblen 30kg e tínhamos a nossa frente uma caminhada de mais ou menos 25 km. Trocamos, mais uma vez, olhares apreensivos e fomos dormir.

O dia começou apressado, pois nossa carona chegou adiantada e com pressa. No caminho, uma surpresa agradabilíssima, vimos um puma! Ele cruzou a estrada tão rápido que se tivéssemos piscado os olhos naquele momento não o teríamos visto. Mas o vimos e que lindo!! Na mesma hora, eu e Sblen falamos: o dia será muito bom!

A trilha começa com pela já conhecida trilha para a Piedra del Fraille. Uma vez que lá chegamos, não subimos para as Piedras Negras, e sim continuamos pela planície, seguindo o Rio Elétrico, em direção ao fundo do vale. Desde o cume da Guillaumet, víamos esse fundo de vale, lindo, imponente e com um glaciar com muitas gretas e todo azul. Era para lá que estávamos indo. A essa altura o frio na barriga já tinha quase congelado meus órgãos.

Percorremos os cascalhos na margem do lago Elétrico que não acabava nunca. E sobe e desce pirambeira, cruza o Rio Pologne, sobe e desce, anda por morenas e mais morenas. Na Patagônia, não queremos ver morenas, mas elas cismam em estar em nossos caminhos. Calma, essas morenas não são mulheres não, são restos de pedra e solo formados pelos glaciares em sua movimentação anual e ao longo do tempo e que formam um terreno nada fácil de percorrer. Muitas vezes as pedras são tão soltas que nossa velocidade tem que diminuir tanto quanto nossa atenção redobrar para que nossos passos sigam pelo local mais seguro. Definitivamente, as morenas da Patagônia são bem chatas e cansativas, ainda bem que sou loira!

Mas voltando ao caminho, depois de 5 horas e meia caminhando, chegamos na metade do percurso, um lugar chamado Prainha, na margem do Lago Elétrico. Comemos, descansamos e olhamos nosso caminho pela frente: estávamos bem perto do glaciar e a metade mais difícil da trilha estava prestes a começar. Não perdemos muito tempo e nos pusemos a andar novamente até chegar ao glaciar.

E foi então que começou um mundo novo que trouxe com ele muitos questionamentos e novos sentimentos. Íamos entrar em uma área fora da nossa zona de conforto e o medo do desconhecido era grande. Eu nunca tinha entrado em um glaciar com gretas e Sblen já tinha feito um curso, mas por algum motivo, ele estava com mais medo do que eu. Ficamos um bom e precioso tempo buscando por onde entrar no glaciar, o que nos foi indicado por dois argentinos que vinham atrás da gente.

Andar no glaciar se demonstrou ser mais fácil do que eu estava esperando, afinal, naquele lugar as gretas estavam descobertas. Mas para os novatos pretensiosos, tudo era meio esquisito e usamos dos recursos que tínhamos para garantir a segurança: grampons nos pés, piquetas a postos e encordamento devido. Tudo isso, no final, acabou nos retardando e era um pouco de parafernália demais para um glaciar tão tranqüilo, mas não sabíamos disso naquele momento e os equipamentos nos davam uma sensação de segurança que nos ajudava a seguir em frente.

Começamos a subir e subir e o cansaço cada vez falava mais alto. Estávamos exaustos e o GPS nos indicava que faltavam ainda 9 km, sendo 6 de subida! Os argentinos ficaram pelo caminho e eu e Sblen continuamos pela parte mais perigosa do dia: uma passagem entre as gretas profundas na direita e os grandes seracs que estavam prestes a cair na esquerda. Respiramos profundamente, abaixamos as cabeças e fomos para cima, sempre para cima. O cansaço era monumental e as mochilas pareciam cada vez mais pesadas, mas não ousamos parar nessa parte. Continuamos até que as pernas não puderam mais e sentamos em um lugar protegido dos seracs. A subida e as gretas não acabavam e o tal do refúgio parecia que nunca iria chegar.

Avistamos um nunatac, um afloramento rochoso no meio do branco do glaciar. Fomos até lá e resolvemos dar uma olhada no GPS apenas para descobrir que ele tinha parado de funcionar. Até então, o mantivemos dentro do casaco, mas o frio era tão intenso que o calor do corpo na região do tórax não foi o suficiente para aquecer as pilhas e elas pararam de funcionar. O impacto dessa notícia foi devastador; estávamos caminhando a 10 horas, as mochilas estavam um horror, o corpo e a mente estavam exaustos e para piorar, estava começando a nevar. O desespero foi profundo e cada um reagiu de uma maneira: Sblen perdeu toda a energia, largou a mochila e sentou no chão. Eu no meu silêncio e angústia larguei a mochila e comecei a andar na direção que imaginava ser o refúgio, onde íamos passar a noite. Ambos pensávamos, secretamente, que íamos ter que bivacar ao relento. Não tínhamos fogareiro, pois na ânsia de diminuir o peso das mochilas, decidimos não o trazer. Isso queria dizer que não tínhamos água e a essa altura já estávamos bem desidratados. Andei por uns 10 minutos e nada. Voltei desolada, com uma angústia que nunca havia sentido na minha vida. Olhei ao redor procurando algum lugar abrigado da neve e do vento que insistiam em nos atormentar, mas via apenas a imensidão branca do glaciar. De repente, vi o Sblen em pé e andando na minha direção com uma cara bem melhor, o que me deu um ânimo. Ele tinha conseguido fazer com que as pilhas voltassem a funcionar através do aquecimento delas (as colocou na virilha!). Ótimo, ficamos eufóricos, mas ainda tínhamos 3 km para andar e 3 horas de luz. O frio era intenso, os pés estavam encharcados, mas tínhamos idéia da onde estávamos e para onde precisávamos ir.

Decidimos largar boa parte do peso ali, nesse nunatak, para andarmos mais rápido e termos a segurança de encontrar o refúgio ainda com a luz do dia. Foi uma decisão difícil, pois sabíamos que no dia seguinte teríamos que voltar a esse lugar e resgatar o que estávamos largando para trás, mas achamos ser a melhor solução tendo em vista nosso enorme cansaço. Andamos na direção para qual o GPS apontava, ou melhor, para onde interpretamos ser a direção correta. Era uma subida, um morro com um desnível de uns 100 metros. Meu cansaço aí começou a tomar conta de mim, quase não tinha comido nada e não bebia nada fazia um bom tempo. Ia bem devagar até que, quando chegamos ao topo desse morro, minha energia se esgotou. Pedi um pouco de comida e comi sem parar de andar, pois a necessidade de chegar ao abrigo era grande. Meu estado estava crítico, nunca tinha me sentido tão exaurida assim na minha vida. Não conseguia pensar direito. Sblen percebendo isso, tomou a frente das decisões, me ordenando para ir para cá ou para acolá incessantemente e eficientemente. Eita parceiro bom!

Notamos que estávamos indo muito para o Norte e que tínhamos que mudar nosso rumo indo mais para o oeste. Nessa hora, Sblen nos dá a melhor notícia de muito tempo: ele avistou as antenas do abrigo. A felicidade foi completa e partimos em direção ao local indicado. Em poucos minutos, eu avisto também as antenas, mas umas antenas bem diferentes e mais perto do que as do Sblen. Ele me diz para irmos para as “minhas antenas”, mas eu, consciente do meu estado, digo para seguirmos para suas antenas. Depois de um pequeno debate, seguimos para as “antenas dele”, que no final eram as certas. Eu estava tão desgastada que havia imaginado umas antenas verdes com uma forma de uma cantoneira de uns 2 metros e que mais pareciam antenas da NASA para comunicação com ETs do que qualquer outra coisa (alucinação?). Na hora que as avistei, elas eram muito reais, mas por algum motivo, eu sabia que elas não estavam ali.


Mantivemos nosso plano, Sblen na frente das decisões, e chegamos ao refúgio. Que felicidade! Não íamos mais passar a noite ao relento, na neve, no vento. Entrei no refúgio e fui em busca de algo para beber. Avistei uma garrafa térmica e não hesitei, a agarrei e balancei, havia líquido dentro. Senti o cheiro e tomei um bom gole. Ops... ECA! Não era água e sim gasolina! Eca! Esse era meu estado! Ms depois de água (dessa vez H2O mesmo) e comida, conseguia pensar melhor e assim fomos dormir, cansados, mas felizes.

No dia seguinte, um lindo amanhecer me desperta. Acordo o Sblen para dividir o espetáculo comigo. O deslumbre foi total e nos fez esquecer de todas as dificuldades do dia anterior. Mas ainda tínhamos que resgatar o material que deixamos 3 km atrás, para depois poder ir para casa. Mas agora, o caminho era conhecido e descida, além do que o pouco da experiência adquirida no dia anterior nos deixou mais rápidos e eficientes. Os longos 25 km passaram devagar, mas finalmente chegamos de volta a Chalten com muita bagagem de conhecimentos novos, bolhas nos pés, nos conhecendo um pouco mais e, claro, um cansaço surreal.
Em Chalten, pensando em tudo que vivi nos dias anteriores, me lembro de uma frase de um grande escalador brasileiro: “a Patagônia desperta sentimentos que nem sabia que existiam”. É, Ale, agora te entendo.

1 de abr de 2009

Feliz Ano Novo

Uma janela de bom tempo aparecia no horizonte e nas previsões para o dia 1º de janeiro de 2009. Era nossa chance te tentar novamente fazer o primeiro cume na Patagônia. Com todo o conhecimento aprendido no Natal, aprontamos as mochilas, fizemos as compras, checamos de novo a previsão metereológica – a janela ainda estava lá – e partimos novamente para a montanha.

Nosso objetivo era novamente a via Brenner na Aguja Guillaumet. Dessa vez, estávamos mais preparados e com um reforço na equipe: Sblen Mantovani havia chegado para se juntar a nós nas escaladas.

1 hora e meia de caminhada até a Pedra do Fraille e toca pra cima! Os mesmos 1.000 metros de subida deveriam ser percorridos até o bivaque Piedras Negras; dessa vez com mis peso, mas sem tanta pressa. Decidimos acampar aí, uma vez que é bem mais perto da base e assim poderíamos escalar mais descansados.

O caminho é tão grande e cansativo que minha mente começa a divagar com a presença da endorfina em meu corpo. Mergulho em um estado de quase meditação, penso em mil coisas e ao mesmo tempo quase que em nada. A felicidade se faz presente: felicidade de estar indo par as montnahas com pessoas muito queridas e com boas probabilidades de cume. Mas me lembro que estamos na Patagônia e essas probabilidades podem mudar tão rápido quanto o vento constante que ali impera.

Depois de duas horas e meia de muita subida chegamos ao bivaque, onde montamos nossa barraca, fizemos comida e começamos a comemoração. Sim, era o último dia de 2008 e em poucas horas estaríamos em um ano novo! Eram 9 da noite, fiz um desenho na neve, tiramos fotos, brindamos com água do glaciar, demos um pulo de ano novo e dez e meia da noite estávamos os três dormindo dentro da barraca, cada um com suas ansiedades, medos e sonhos.



O despertador não tocou às quatro da manhã, mas o Bernardo acordou assim mesmo. Sair do conforto do saco de dormir foi muito difícil, mas era preciso, ainda tínhamos um bom caminho até a base da via.

Chegamos à base por volta das 6, já cansados, e começamos a escalada as 7 da manhã. Guiei os quatro primeiros esticões com gelo nas fissuras e a pedra muito fria. Era difícil sentir o que estava fazendo, as mãos congeladas e as incertezas dominavam meus sentimentos. Mas aí surgiu a vez do Bernardo guiar, eram as enfiadas mais difíceis da via.
Na Patagônia não é muito do que você quer guiar, mas sim do que você pode guiar em conjunto com a melhor opção para a equipe fazer cume. Nesse caso, era deixar o Bernardo guiar as enfiadas mais difíceis, muitas vezes as melhores e me contentar (e Sblen também) em ficar com as mais fáceis. Tudo em nome de agilidade e eficiência para assim aumentarmos nossa chance de cume.

O cume foi atingido as 3:30. Estávamos extasiados com as fendas perfeitas, a paisagem maravilhosa e as condições do tempo. O vento estava presente, claro, mas não ameaçava e o sol brilhava. Ainda era a metade do caminho, então não perdemos muito tempo para tirar fotos, comer e beber um pouco e começar o movimento inverso: descer e descer.


O rapel, sem vento, foi tranqüilo e chegamos de volta a barraca as 8 da noite, depois de 15 horas de escalada. O cansaço era grande, mas maior ainda era a felicidade e sensação de vitória. Vitória não sobre a montanha, mas sobre nós mesmos por termos feito o 1º cume na Patagônia no 1º dia do ano! O ano promete!

A noite, ao contrário do dia, foi de tormenta: ventos fortes e nevasca nos impediram de dormir por um bom tempo. O dia amanheceu um pouco melhor e descemos para Chalten para comemorar com a galera do CEB e Tião, meu “amuleto de sorte” e com nossos novos amigos argentinos: Seba, Marcela e Flopi. E FELIZ ANO NOVO!!!!





Equipo:
Camalots: 0.5, 3.5 e 4 (1 de cada)
0.75, 1, 2 e 3 (2 de cada)
Nuts – 1 jogo
2 cordas duplas
14 costuras

Bienvenidos a Patagonia

Estávamos (Bernardo Collares e eu) caminhando com muito peso nas costas. Era o Natal 2008 e era nossa primeira tentativa de escalar na Patagônia argentina. Nosso objetivo era a via Brenner na Aguja Guillaumet (2.579 m.), no Parque Nacional Los Glaciares, na cidade de El Chalten, na Argentina.
Para tal, um táxi nos deixou a 16km da cidade ao lado da ponte do Rio Elétrico, onde se inicia a trilha de 6 km até Pedra del Fraille. Ali era literalmente o lugar onde o vento faz a curva e o mesmo parecia soprar muito mais forte do que estava na realidade. Cabelos esvoaçando, casacos fechados, gorros colocados, começamos a andar: um pé na frente do outro, cabeça para baixo e pensamentos longe dali.


Como marinheiros de primeira viagem, acabamos levando coisas desnecessárias e a logística não funcionou tão bem quanto gostaríamos, por isso a mochila que já deveria ser pesada, estava pior ainda. Mas os ânimos estavam altos e seguíamos adiante ignorando as condições climáticas que não nada favoráveis: o vento nos empurrava para trás e a chuva fina não parava de cair.

Depois de quase duas horas, chegamos a Piedra del Fraille e olhamos o percurso que
ainda nos esperava: uma subida muito íngrime. O vento parecia estar ainda mais forte e a mochila mais pesada com o cansaço. Considerando que tínhamos apenas 3 horas e meia a mais de caminhada com apenas 500 metros de desnível, decidimos ficar ali mesmo e fazer o ataque ao cume a partir desse acampamento. Colocamos o despertador para as duas da manhã e fomos dormir.

Acordamos para uma noite estrelada e com vento incessante, mas decidimos subir assim mesmo. A fome de pedra falava mais alto do que qualquer possibilidade de racionalizar sobre a situação. Começamos a subida e 260 metros de desnível depois paramos em um lugar abrigado do vento para esperar o dia amanhecer. Pensávamos que estávamos na metade do caminho. Com os primeiros raios de luz, nos colocamos a subir, sempre subir. E subíamos, subíamos e não chegávamos a lugar nenhum. Quando eu já estava pra lá de cansada de subir, Bernardo me diz que já havíamos percorrido um desnível de 670 metros. “Ué? Não eram 500 metros?” Baixamos a cabeça e continuamos no “toca para cima”.

Depois de duas horas e 1000 metros de desnível, chegamos ao em Piedras Negras, onde era para ter sido nosso bivaque. Rimos, colocamos mais roupa, comemos um pouco do que tínhamos (o café da manhã tinha ficado lá em baixo) e continuamos a subir para a base da via. As informações que tínhamos dizia mais uma hora de caminhada até a base (seja da via Brenner ou Founrouge) e não parecia muito longe. Mas as aparências e as informações na Patagônia enganam e duas horas depois de muito sobe pedra, chegamos a base do neveiro inicial. Estávamos mortos, eu nunca tinha visto uma caminhada tão íngrime, longa e constante na minha vida.

O neveiro inicial era um problema, afinal, nem eu nem Berna tínhamos experiência com neve e, além disso, tínhamos apenas um par de grampons e estávamos sem as piquetas que deixamos no final do glaciar. Contornamos o neveiro pelas pedras congeladas da direita.
Quando não deu mais, Berna colocou seus grampons e tocou para cima, cavando alguns degraus para mim que vinha atrás sem grampons e com muito medo. Mais uma hora e pouco, chegamos, as 10:15, na base da via. Não foi surpresa nenhuma o vento uivante e feroz que encontramos ali, mas foi surpresa e um grande susto ao ver a demonstração de sua força ao levantar uma mochila com mais de 6 quilos do chão. A sorte foi que ela caiu perto da gente, na beira do precipício, mas não nele. Com essa rajada, um saco plástico saiu voando, levando com ele toda a esperança que a gente tinha de escalar naquele dia.

Só nos restava descer os 1.500 metros de desnível que havíamos acabado de subir. Haja joelho! Voltamos a Chalten com muito mais conhecimento sobre o que é Patagônia e sobre o que nos espera nessa região tão inóspita.

Por um tempo nos contentamos em tomar cervejas para esperar a próxima janela, ou melhor, uma janela de verdade. E feliz Natal!



Sobre escalar em Chalten

Escalar em Chalten exige uma combinação de habilidades para que tudo saia o mais próximo da maneira prevista e a escalada flua com eficiência. Lá é necessário ir além dos seus limites para entrar e sair da montanha o mais rápido possível. Isso porque na Patagônia tudo pode mudar em questão de minutos e sem essa eficiência, seus planos poderão ser levados junto com a primeira rajada de vento que anuncia a mudança eminente no clima.

Tudo começa com a logística: quando será a “ventana”, ou seja, que dias o clima estará bom, montanha e via objetivadas, equipamentos necessários, por qual trilha subir, onde dormir, o que comer, rotas de fuga, seus parceiros. A logística é, na verdade, um grande ingrediente do sucesso da empreitada e se ela não for planejada com muito cuidado, levando em conta todos os fatores envolvidos, possivelmente o objetivo estará comprometido.

Mas as habilidades exigidas não param aí. É necessário um bom condicionamento físico para percorrer as longas distâncias entre a cidade e a base das vias. As trilhas são extremamente exigentes e tem uma média de 15-25 km cada perna. As trilhas mais curtas possuem um declive muito acentuado e as mais longas parecem não chegar nunca, ainda mais com o peso que carregamos nas costas.

Uma vez na base da montanha objetivada, outra habilidade entra em ação: a técnica de escalada em si. As vias mais fáceis estão na casa do 5º sup, e para escalar confortavelmente e com segurança, é necessário estar escalando pelo menos um 6º grau. Mas mais do que a técnica em si, Chalten exige muita experiência e uma agilidade grande em procedimentos para poder escalar com eficiência e rapidez. Cada minuto perdido nas paradas conta, pois sair da montanha rapidamente é sinônimo de segurança.

Em todo momento e tudo ao redor te diz para dar meia volta e ir tomar uma cerveja em Chalten: a “ventana” que não é tão boa quanto esperada, as nuvens que não desaparecem do céu, a mochila pesada nas costas, a bota desconfortável, a trilha interminável, o bivaque desconfortável, a via exigente, o vento que sopra, o cansaço, a incerteza... TUDO te fala para não continuar e por isso uma das habilidades mais exigidas em Chalten é a determinação. De nada adianta estar com um bom condicionamento físico, estar escalando mais forte do que nunca, ter planejado perfeitamente a logística, se você não tem determinação e vontade de atingir seu objetivo. A solução mais fácil sempre é desistir e arrumar alguma desculpa para não ter feito o que havia proposto. Difícil é se motivar, continuar e ter a determinação de realizar seu sonho e atingir seu objetivo sem sair dos padrões de segurança.

A complexidade de escalar em Chalten é grande e qualquer deficiência em uma dessas habilidades custa tempo, recurso e pode significar você atingir ou não seu objetivo.

Cada tentativa de escalar em Chalten é válida é uma grande oportunidade de aprendizado. As experiências vividas despertam sentimentos fortes e profundos incitando questionamentos, estimulando uma revisão de valores e conceitos e aprofundando o auto conhecimento. Cada entrada na montanha é um convite à expansão da sua zona e conforto, à superação de seus limites e ao estímulo de mudanças profundas.

Não conheço nenhum lugar onde aprendi mais sobre o que é parceria na montanha e sobre como nós somos apenas do tamanho de uma formiga na escala de tempo e espaço. Foi, definitivamente, o lugar onde mais aprendi sobre mim mesma e me redescobri como uma pessoa um pouco mais consciente de quem sou e do que quero para mim e para o mundo. Só por isso já valeu a pena estar lá, mas felizmente fui além e consegui juntar um pouco das minhas habilidades e atingir quatro cumes nos dois meses e meio que passei nesse pueblo encravado no coração do Parque Nacional Los Glaciares, na Argentina.