19 de ago. de 2009

Acesso às Montanhas Pan-Americano

Fui convidada a vir ao Canadá pelo Armando Menocal para uma reunião de formação de um grupo / organização que trabalhe com acesso às montanhas a nível pan-americano. O Armando foi um dos fundadores do Access Fund, programa americano que visa garantir o acesso de escaladores a áreas de escalada e promove a conservação dessas áreas. Foi com base no Access Fund que o programa Acesso às Montanhas, da FEMERJ, foi criado, do qual sou a coordenadora. Bernardo Collares ia se juntar a mim, mas seu visto americano foi negado e acabei vindo junto com o Flávio Wanieswisk, que mora em Vancouver.
A reunião aconteceu durante os dias 12, 13 e 14 de agosto, em Squamish, no Canadá e contou com pessoas do Chile, Argentina, México, Cuba, Brasil, Canadá, EUA e Espanha. Outros países não puderam mandar representantes por diversas razões, dentre as quais, a negação de vistos americanos e canadenses chamou a atenção.
Durante esses três dias, os participantes descreveram os principais problemas de acesso de suas áreas, ações que estão sendo tomadas, vitórias e principais entraves para o desenvolvimento de um programa de acesso.
Dentre problemas de acesso, foram descritos os problemas com responsabilidade civil no Rio, situação política em Cuba (onde escaladores são presos e interrogados por 10 dias, apenas por escalarem), potencial de Cochamo (Chile) se tornar uma central hidrelétrica. Foram muitos problemas que foram descritos e diversas soluções foram propostas.
No final dos 3 dias, a organização Access Pan-Am foi criada com sócios fundadores de diversos países e país base ainda a ser definido.
O impressionante foi ver as pessoas extremamente engajadas em programas de acesso por todos os lados. E foi com orgulho que vi que nosso programa no Rio é o único programa de Acesso na América Latina atualmente. E isso contamos apenas com a dedicação de voluntários que tocam o projeto por amor às montanhas. E viva as montanhas!

9 de jul. de 2009

Eu e as Montanhas

Amo as montanhas. Cada vez que estou nelas, esse sentimento é renovado. Me sinto em paz e me alegro em saber que posso me surpreender cada vez que as visito e que não me canso com sua beleza.
Sim, estou em casa nas montanhas, sempre. Mas para me sentir completa, preciso escalar. Caminhar pelos vales cavados por rios e glaciares e andar até cumes deslumbrantes me traz muita alegria. Mas não se compara com os sentimentos em mim despertos quando escalo.
Cada vez mais me afirmo como “escaladora”. E não falo aqui de qualidade, não me importo o quão bem (ou não) eu escalo. Falo sim sobre minha própria identidade, sobre quem eu sou, o que me faz feliz e onde aprendo a viver. É, a escalada me traz “completude” e me ensina a ser um ser humano melhor. Cabe a mim apenas tentar aprender.

Wind River Range, Wyoming


Vrum, vrum... o barulho lembrava uma moto sendo acelerada em ponto morto. Mas estávamos longe de qualquer civilização e o som vinha do vento que invadia nossa barraca e sacudia a lona incessavelmente. A situação beirava o ridículo e nós só podíamos rir. Era o 14o dia de expedição, o 14o dia com precipitação e o 13o que essa precipitação era em forma de neve. Era junho e o verão ia chegar em 4 dias, mas o clima era de inverno. Os dias estavam frios, gelados para ser mas precisa, sendo a media da temperatura entre -5o e 5o. As tempestades constantes nos forçavam para dentro das barracas, dentro de nossos sacos de dormir.
Todos os dias, íamos dormir com uma pontada de esperança que o dia seguinte estaria com um céu limpo, azul, sem nuvens. Todos os dias acordávamos com vento ou neve. Alguns dias, a esperança se estendia até quando abríamos o zíper da barraca; a ausência de vento e neve nos fazia crer que era esse o dia. Mas era tudo ilusão. As nuvens ainda dominavam o céu e a calmaria era uma pequena brecha no tempo insano que estávamos tendo.

Parecia a Patagônia, mas por sorte o vento não era tão forte. E os ares gelados da terra ao sul estavam a milhares de km de distancia. Ali, estávamos na parte Norte da cadeia montanhosa Wind River, no noroeste do estado de Wyoming, EUA. Éramos 15 pessoas, 3 instrutores e 12 alunos. Mas nessas 2 primeiras semanas de curso a parte de ensinar e aprender ficou secundaria. O importante era nos mantermos secos e aquecidos ou relativamente aquecidos.
Meu co-instrutor Mike já havia estado ali mais de 10 vezes e essa foi a vez mais fria e com pior tempo em dias consecutivos que ele pegou. É... só nos restava rir e torcer por dias melhores.

29 de mai. de 2009

Mount Valhalla, Alaska

Tomava um chá bem quentinho quando uma gota caiu de meu copo na minha calça e imediatamente congelou.
Todo dia acordávamos com nossas águas congeladas dentro das garrafas. Somente conseguimos ter água em estado liquido na manha quando colocamos as garrafas entre nossos sacos de dormir. Fazia muito frio e no dia seguinte íamos escalar o Mount Valhalla e tudo que eu queria era entrar no meu saco de dormir para me aquecer o máximo possível. o para nosso acampamento.
Valhalla na mitologia nórdica é o local onde alguns guerreiros vikings, escolhidos pelo deus Odin, eram recebidos após terem morrido, com honra, em batalha. O Mount Valhalla é uma pirâmide de pedra com 3699 metros e diversas faces nevadas e é cercado pelos Glaciares Nelchina, Columbia e Harvard, no Alaska.
Acordamos as 6 da manhã com um vento surreal que aliado ao frio que estava, deixava nossa disposição tão baixa quando a temperatura daquela alvorada. Adiamos nossa escalada para o dia seguinte, que amanheceu sem uma nuvem no céu e vento quase zero. Era o dia perfeito! Colocamos nossos esquis e subimos para a base do primeiro desafio do dia: uma headwall de 180 metros e 50o de inclinação. A primeira cordada foi na frente e descobriu uma parede totalmente congelada, o que atrasou bastante nosso avanço. Mas chegamos ao colo e dali partimos para uma linda crista de mais ou menos 1.5km, que nos levaria ao cume do Valhalla. Eu no meio da corda, não guiei nada, mas me divertia com cada metro conquistado.
No início, a crista não apresentou muito trabalho, mas na medida que ganhávamos altitude, as dificuldades foram se apresentando maiores. A qualidade da neve alterava entre ótima para proteção e “nem tão boa assim”. 3 horas mais tarde, lá estávamos nós, numa linda crista, eu no meio de uma cordada, a 3.600m de altitude. O vento gelado tocava a nossa espinha e nos deixava tremendo de frio, isso mesmo com um céu de brigadeiro de tão azul e sem nuvem. Ainda nos encontrávamos a 500 metros do cume e todos se encontravam exaustos e os metros finais se mostravam como os mais difíceis do dia, com uma crista muito fina e uns 10 ou 20 metros bem verticais com gelo azul, azul. Eu que não havia guiado nada estava tranqüila para continuar, mas ninguém mais queria subir.
Demos meia volta e iniciamos nossa longa descida, que se demonstrou mais longa e trabalhosa do que pensávamos. Descer a headwall foi desafiante, o sol já não nos aquecia e o vento era constante e frio. A temperatura caia a cada segundo e nós nos movimentávamos com danças e pulos para nos aquecer. Ao mesmo tempo, nos mantínhamos alerta aos procedimentos que nos deixavam seguros.
Chegamos de volta ao acampamento cerca de 1 hora da manhã, com frio, fome e sono. E assim, voltei do Alaska sem nenhum cume, mas com muito aprendizado.

As cores do Alaska


Akira Kurosawa que me desculpe, mas a imensidão não é azul, é branca! Pelo menos no Alaska é assim. Alias, nem sei se esse filme é dele, mas me parece ser. A cadeia montanhosa Chugach é um mar de branco com alguns pontos negros das rochas que aparecem e as vezes o azul do céu. Mas vários dias, as únicas cores que vimos além do branco vinham dos nossos casacos coloridos, barracas verdes e equipamento em geral. Tivemos alguns dias assim: tudo branco. A nevoa era tão baixa que se juntava com o glaciar e você não conseguia ver metros a frente, e a luz era tão plana que a perspectiva desaparecia. Algo que é quase plano parece íngreme e vice-versa.
E assim passamos nossos dias no Alaska, num mundo de poucas cores, quase sem vida, mas que te surpreende a cada momento com sua beleza imensa e magnitude incomparável.

Viagem de Primeira

Foi uma viagem de muitas primeiras vezes: primeira vez no Alaska, primeira vez cavando uma cozinha na neve, primeira vez montando uma parede de blocos de neve contra o vento, primeira vez montando um iglu... Poderia enumerar muitas outras primeiras vezes, mas nada se compara com a primeira vez numa greta. Calma, não cai nessa greta não, desci controladamente.
Os glaciares são rios congelados em movimento e em locais onde a tensão e muito grande, umas fendas são formadas com o objetivo de liberar essa tensão, formando então as gretas que são tão temidas por montanhistas. Cair dentro de uma greta enquanto encordado não é nada agradável e para sair o montanhista que caiu ascende por corda fixa ou os companheiros tem que iça-lo/a. Cair numa greta sem estar com uma corda de segurança, pode significar um susto muito grande ou até a morte, dependendo do tamanho da greta e da queda. Por isso, andávamos sempre encordados, seja caminhando ou esquiando. O esqui era usado como meio de transporte para termos um objeto com uma maior massa e assim uma melhor flutuabilidade na neve.
Foi logo no inicio da expedição, acho que no primeiro ou segundo dia no glaciar. O dia amanheceu lindo e fomos em direção a uma mega greta que havíamos avistado do avião. Em meia hora estávamos ali, esperando as pessoas que estavam na frente da corda determinar uma área segura, perto da borda da greta para todos nós ficarmos.
Perímetro de segurança estabelecido, ancoragens montadas, cordas fixas e... não descemos. Não conseguíamos ver se estávamos em cima de um teto de gelo ou não e se estivéssemos, o exercício estaria comprometido.

Mas aproveitei uma das cordas fixas, cheguei na beirada e dei uma espiada lá dentro. A greta era enorme, uns 25 metros de comprimento, 5 metros de largura e 15 de profundidade; isso até onde conseguíamos ver, pois ela deveria ser bem mais profunda. As formações de gelo pareciam ter sido esculpidas por um artesão surrealista de tão lindas que eram. As cores viam em tons de azuis, brancos e um preto bem escuro das profundezas geladas da fenda.
Voltei ao meu grupo e demos a volta para o outro lado da greta, onde novamente estabelecemos o perímetro de segurança, montamos as ancoragens e fixamos as cordas. Ali sim estava seguro para descermos e com tudo pronto, logo me prontifiquei a ser a primeira a descer. O objetivo era treinar ascensão por corda fixa, mas eu queria mesmo era entrar naquele mundo gelado!

E assim desci, rapelando na corda fixa, até a ponte de neve que parecia o chão, mas não era. Me senti pequena diante da grandiosidade da greta. Somos realmente um sopro na história do mundo e essa história estava registrada nas paredes daquela greta, mostrando os milhares de anos que demorou para ela ser formada.

Alaska, Primeiras Impressoes


Existe uma palavra em inglês que descreve exatamente como eu me sentia dentro daquele minúsculo avião: awe. Algumas pessoas traduziriam como deslumbramento, outros como admiração. Naquele momento, eu sentia uma mistura dos dois. Era como se eu estivesse em outro mundo. "Pera ai!" Eu estava em outro mundo: o mundo congelado da cadeia montanhosa Chugach, no Alaska!
A cadeia Chugach fica no sul do Alaska, perto do Pacífico. Seu nome vem de uma tribo esquimó, os Chugachmiut. É o local do mundo onde mais se neva anualmente, com uma média de mais de 1500cm! Esse link da uma idéia da sua extensão e localização: http://maps.google.com/maps?f=q&source=s_q&hl=en&geocode=&q=chugach+mountains,+alaska&sll=61.689872,-148.597641&sspn=0.10111,0.361862&ie=UTF8&ll=61.429574,-147.488708&spn=1.631387,5.789795&t=h&z=8

Estávamos percorrendo as milhas que nos separavam do nosso primeiro acampamento no glaciar em um aviãozinho que mais me amedrontava do que qualquer outra coisa. Ele voava entre as montanhas e não sobre elas para economizar combustível. Depois de um tempinho, me acostumei com seu barulho e comecei a apreciar ainda mais as paisagens maravilhosas que iam surgindo. Víamos lá em baixo os rios congelados cortando e cavando os vales e formando o caminho que iríamos percorrer dentro de alguns dias. Estava deslumbrada com as montanhas que surgiam a cada segundo e que mostravam um mundo completamente distinto do meu. Em vez do verde da Mata Atlântica, era o branco da neve que cobria as montanhas. O bonito granito da Serra dos Órgãos foi substituído por uma rocha friável e podre que nem eu gostaria de escalar, mas que acentuava o contraste entre o céu azul anil e o branco resplandecente da neve.
No Alaska é isso que temos, basicamente três cores: azul, branco e preto. Mas as vezes, nem isso, pois baixa uma tempestade ou nevoa e tudo fica branco, nos tirando a perspectiva da onde e neve e onde e nevoa.
Enquanto o avião se aproximava, eu continuava a analisar o que me esperava pela frente, até que me apontaram uns pontos pretos lá em baixo, no meio do branco do glaciar que pareciam pedras, mas que eram, na realidade, nossos companheiros de expedição. Pronto, era isso! Estávamos ali no nosso primeiro destino: o glaciar Nelchina, um imenso branco circundado por lindas montanhas.

O avião pousou e decolou e nos ficamos ali saboreando o fato de estarmos sozinhos no meio das montanhas. Mas o trabalho nos esperava, precisávamos montar nosso acampamento. 4 horas cavando muita neve para construir a cozinha, banheiro e parede de vento ao longo da barraca e pronto, podemos descansar.