2 de set. de 2009

Salathe Wall, Yosemite


Alguns números da escalada:
2 dias de preparação
1 dia içando haul bag
4 noites na parede
5 dias de escalada
35 enfiadas de corda
1.050 metros de escalada
57 horas escalando
45 litros de água
1a vez no cume do El Capitan
Não é comercial do Master Card, mas não tem preço!

Yosemite é umas "Mecas" mundiais de escalada em rocha. Escalador do mundo inteiro vem para o "valley" para serem desafiados nas imensas paredes de granito. Dois de seus cartões postais são o Half-Dome e o El Capitan ou El Cap, como é carinhosamente conhecido pelos escaladores. Queríamos escalar o segundo, que é o maior monolito contínuo em granito do mundo. Meu parceiro: Joe Frost. Nosso objetivo: a via Salathe Wall, umas das mais acessíveis do EL Cap, mas também uma das mais longas (se não a mais longa), com mais de mil metros de escalada contínua.
Chegamos ao Vale e logo decidimos entrar no nosso objetivo. Não encontramos ninguém que já havia escalado a via, então nos baseamos no que o guia nos falou, e começamos as preparações.

Os dias de preparação

Decidimos não levar fogareiro e por isso tínhamos que cozinhar toda a comida antes de entrar na escalada. Foram mais ou menos umas 6 horas cozinhando jantares e cafés da manha para 5 dias. Macarrão, arroz, xapate, etc... Ufa! Fora isso, precisávamos decidir os equipamentos que íamos levar: duas cordas, sendo uma estática, quase 3 jogos de equipamento em móvel, mais equipamento de escalada em artificial. Uiii, que peso! E para finalizar, água! Precisávamos estabelecer quanto íamos levar para a parede. Inicialmente decidimos por 2.5 litros por pessoa por dia, 25 litros no total.
Para acompanhar toda essa preparação, muita cerveja. Obviamente, a idéia não foi a melhor, pois diminuiu nossa eficiência e acabamos indo dormir sem parte das coisas prontas, mas nos divertimos muito.

Dia 0
Acordamos atrasados, com uma leve dor de cabeça e nos pusemos a trabalhar. Os 30 minutos que achávamos que ia demorar se estenderam por mais de 2 horas. Resultado: colocamos o haul bag nas costas por volta de meio dia, com um calor infernal de quase 40o que lembrava o verão carioca.
O interessante de big wall é que ela começa a “nos colocar no nosso lugar” antes mesmo de entrarmos nela. A logística, os dias de preparação e arrumação de material já nos deixam desorientados e nos fazem baixar a crista e entender que não vai ser fácil.

A trilha é curta e logo achamos a base da via e uma surpresa: cordas fixas que nos levaram ao Platô do "Heart Ledges", onde seria nosso primeiro bivaque. Essas cordas nos economizaram muito peso e logística e como não contávamos com elas, ficamos muito felizes.


Durante 4 horas enfrentamos o calor e a verticalidade do granito do El Cap para levar nossos víveres a Heart Ledges. Içar haul bag não é fácil, mas ganhamos os metros com eficiência e sem perceber o tempo passar, chegamos a nosso destino, onde deixamos as coisas e imediatamente nos pusemos a descer para onde tinha sombra.

O calor infernal nos fez repensar nossa quantidade de água e na volta para o carro encontramos com uns escaladores que tinham descido da parede. Eles falaram que tinham levado 6 litros por pessoa por dia. Nos entreolhamos apreensivos, pois isso significava 7 litros a mais por dia para a gente e agora sem a possibilidade de içar o peso no haul bag. Teríamos que levar esse peso extra com a gente, nas costas. Pensamos em 57 mil opções e decidimos levar um extra de quase 4.5 por pessoa por dia, carregando para cima mais 19 litros (ou 19 quilos) de água.

Dia 01
Depois de uma noite na base da via, começamos a escalada propriamente dita. Nosso objetivo era chegar a nosso haul-bag, 11 enfiadas acima quase todas em livre. Logo na primeira enfiada decidimos que não íamos içar a mochila com a água por estar muito pesada; quem estava jumareando teria que carregá-la.

A escalada fluía tranquilamente, mas subimos com o calor infernal que drenava nossa energia na medida em que sugava nossa água. A mochila muito pesada não ajudava em nada e acabou nos deixando bem mais vagarosos do que queríamos.
Achamos uma sombra e ficamos ali quase uma hora esperando o sol baixar. Dali eram apenas duas enfiadas fáceis até o platô, ao qual chegamos por volta das 6 da tarde. Mas nem pensar em descansar ainda, pois decidi escalar a próxima enfiada para agilizar nosso dia seguinte. Num misto de escalada em livre e artificial subi os próximos 45 metros e desci já limpando a enfiada.
A primeira noite na via foi sensacional. O platô era incrível e a vista maravilhosa. Nosso jantar, merecido, foi macarrão com sei lá o que. Depois de comer, nos entregamos a sensação de êxtase de poder descansar depois de um lindo (e quente) dia de escalada. Bons sonhos.... Bivaque 5 estrelas.


Dia 02

O segundo dia amanheceu sem uma nuvem no céu, mais um dia quente na pedra. Mas a empolgação ainda era grande e logo nos pusemos a nos mover. Subi pela corda fixa e puxei o haul bag, agora muito mais pesado, para continuarmos nossa empreitada.


A próxima enfiada foi guiada pelo Joe e é uma das mais temidas de toda a escalada. Depois de um pêndulo, é necessário escalar um 5o grau em off width sem proteção nenhuma por uns 25 metros até chegar na parada. Confesso que fiquei feliz de não ir, até porque o bichinho voou pela fenda, parecia que estava em um lugar super fácil, mas quando vi a fenda vi que não era nada disso. Ele escalou muito eficientemente e "tocou pra cima" pois sabia que não tinha opção de proteger mesmo. Impressionante.


Dali, seguimos alternando algumas guiadas em livre e artificial, passando por "the ear", uma chaminé apertada de 4o que foi guiada pelo Joe e coube a mim a pior parte: limpá-la numa mistura de jumareada, escalada com tênis, entalamento de corpo e peças na horizontal. Horrível!


Chegamos na primeira enfiada que seria toda em artificial e ela ainda tinha praticamente 50 metros. Parti com uma mistura de determinação e apreensão, sentimentos constantes em big walls. As proteções se demonstraram sólidas, mas trabalhosas. Ao passar um teto, me deparei com a parte que iria me dar mais trabalho, uma fenda bem fina, com algumas partes mais abertas, que seguia por mais uns 35 metros. Segui com cuidado e o tempo foi passando, fui vendo o sol descer e comecei a agilizar a escalada. Não parava para pensar muito, nem para testar as peças, queria chegar na parada antes de escurecer, pois já não tinha como puxar nada pela retinida e eu estava sem headlamp. Foi trabalhoso, mas cheguei na parada, já escuro e extremamente desidratada. Trouxe o haulbag no limite das minhas forças, muitas vezes pensei em parar e descansar, mas sabia que precisava tirar energia da onde eu pudesse pois tínhamos que continuar seguindo até o nosso próximo bivaque. Ele não estava longe, apenas uma enfiada, mas não sabíamos se essa seria difícil ou longa, o que acabou não sendo nem uma nem outra.


Chegamos no nosso bivaque as 10:00 da noite, depois de 15 horas escalando, mortos, mas felizes. Comemos o que conseguimos, o que, apesar da fome, não foi muito e mergulhamos num sono profundo. Bivaque 4 estrelas.

Dia 03
Acordamos em um lugar fenomenal: a "alcove": nosso bivaque que era uma mistura de platô, com totem, caverninha e alcova. Não nos demoramos muito e Joe começou a escalar por atrás do que seria um dos lugares mais loucos por qual já passei em escaladas, o El Cap Spire.



Nesse dia, escalamos durante 11 horas e chegamos ao próximo bivaque com luz e a necessidade de um descanso mais relaxado fez com que não continuássemos a escalar a próxima enfiada. Sabíamos que o próximo dia seria puxado e o mais longo, mas precisávamos ter um tempo para fazer "nada". Mas fazer nada em uma big wall significa arrumar equipamento, comer, mexer no haul bag, preparar nossa cama, pensar na logística do dia seguinte e organizar mais equipamento. Obviamente, nosso fazer nada demorou mais de uma hora, mas uma hora tranquila, sem a pressão de ter que escalar e chegar no próximo bivaque. Isso ficaria pra amanhã. Bivaque 2 estrelas.

Dia 04
Acordamos ainda na escuridão para o dia que seria o mais trabalhoso, cheio de enfiadas longas em artificial, uma headwall e um mega teto para serem "vencidos". O cansaço era grande, mas a determinação de continuar também o era. Big wall nos desafia inteiramente e sempre alcançamos o que pensamos ser nosso limite e nos surpreendemos ao ver que esse limite é extremamente "elástico" e, que na verdade, podemos mais do que pensamos. E era isso que estávamos testando, alcançando e provando. Continuávamos a subir, a escalar as paredes que ficavam cada vez mais verticais e mais complicadas e não pensávamos em outra coisa a não ser subir.
No limite do cansaço , do stress e da necessidade de trabalho em equipe, coisas simples se tornam complicadas e nos desafiam a viver em harmonia e parceria. Muitas vezes extrapolamos os limites e nos estressamos para no momento seguinte saber que precisamos um do outro e de trabalhar em conjunto para que a gente atinja nosso objetivo. Não é fácil e a convivência nessas situações e locais nos fazem ver que não alcançamos nada sozinhos.
Alternamos as enfiadas, eu com as enfiadas mais longas e complicadas e o Joe com as enfiadas mais curtas. Algumas das enfiadas dele acabaram não sendo tão simples como esperávamos e ele demorou bastante. Chegamos no teto que foi guiado pelo Joe e coube a mim a árdua tarefa de limpá-lo. Difícil é pouco para o que foi limpar esse teto enorme e com diversas passadas em horizontal, mas kmon. As enfiadas eram extremamente verticais e ligeiramente negativas, deixando as paradas complicadas e nada confortáveis.


A última enfiada do dia era mais um dos cruxs da via e coube a mim passá-lo à noite, na base da headlamp. Fiquei nervosa, apreensiva. Mas ao sair da parada e começar a escalar, o foco nas peças me fez quase esquecer a escuridão da noite e apenas pensava em ganhar os metros finais até o bivaque.
Esse bivaque, um 4 estrelas, era muito plano mas bem estreito e comprido e a noite foi impressionantemente confortável.

Dia 05

Acordamos sem pressa. Era nosso último dia na parede. A vontade de não fazer nada era enorme e foi difícil de motivar a se mover. Joe não se sentia muito bem e me ofereci para guiar tudo, mas ele não quis e guiou a primeira enfiada.

As próximas duas ficaram para eu guiar. Subir o El Cap era muito mais sonho dele do que meu e por isso deixei para ele a 35a e última enfiada da via.
Chegar no cume de uma via é indescritível, ainda mais de uma via que exige tudo e mais um pouco de você, que te desafia em todos os sentidos: psicológicos, físicos, comportamentais, etc.


Estávamos no cume do "capitão", do El Cap, depois de muita, mas muita escalada. Rimos à toa, curtimos o visual, a sensação de estar ali, e nos pusemos a descer, pois a descida era desconhecida e longa...
Mas valeu! Muito aprendizado! Muita energia!
Kmon!

19 de ago. de 2009

Acesso às Montanhas Pan-Americano

Fui convidada a vir ao Canadá pelo Armando Menocal para uma reunião de formação de um grupo / organização que trabalhe com acesso às montanhas a nível pan-americano. O Armando foi um dos fundadores do Access Fund, programa americano que visa garantir o acesso de escaladores a áreas de escalada e promove a conservação dessas áreas. Foi com base no Access Fund que o programa Acesso às Montanhas, da FEMERJ, foi criado, do qual sou a coordenadora. Bernardo Collares ia se juntar a mim, mas seu visto americano foi negado e acabei vindo junto com o Flávio Wanieswisk, que mora em Vancouver.
A reunião aconteceu durante os dias 12, 13 e 14 de agosto, em Squamish, no Canadá e contou com pessoas do Chile, Argentina, México, Cuba, Brasil, Canadá, EUA e Espanha. Outros países não puderam mandar representantes por diversas razões, dentre as quais, a negação de vistos americanos e canadenses chamou a atenção.
Durante esses três dias, os participantes descreveram os principais problemas de acesso de suas áreas, ações que estão sendo tomadas, vitórias e principais entraves para o desenvolvimento de um programa de acesso.
Dentre problemas de acesso, foram descritos os problemas com responsabilidade civil no Rio, situação política em Cuba (onde escaladores são presos e interrogados por 10 dias, apenas por escalarem), potencial de Cochamo (Chile) se tornar uma central hidrelétrica. Foram muitos problemas que foram descritos e diversas soluções foram propostas.
No final dos 3 dias, a organização Access Pan-Am foi criada com sócios fundadores de diversos países e país base ainda a ser definido.
O impressionante foi ver as pessoas extremamente engajadas em programas de acesso por todos os lados. E foi com orgulho que vi que nosso programa no Rio é o único programa de Acesso na América Latina atualmente. E isso contamos apenas com a dedicação de voluntários que tocam o projeto por amor às montanhas. E viva as montanhas!

9 de jul. de 2009

Eu e as Montanhas

Amo as montanhas. Cada vez que estou nelas, esse sentimento é renovado. Me sinto em paz e me alegro em saber que posso me surpreender cada vez que as visito e que não me canso com sua beleza.
Sim, estou em casa nas montanhas, sempre. Mas para me sentir completa, preciso escalar. Caminhar pelos vales cavados por rios e glaciares e andar até cumes deslumbrantes me traz muita alegria. Mas não se compara com os sentimentos em mim despertos quando escalo.
Cada vez mais me afirmo como “escaladora”. E não falo aqui de qualidade, não me importo o quão bem (ou não) eu escalo. Falo sim sobre minha própria identidade, sobre quem eu sou, o que me faz feliz e onde aprendo a viver. É, a escalada me traz “completude” e me ensina a ser um ser humano melhor. Cabe a mim apenas tentar aprender.

Wind River Range, Wyoming


Vrum, vrum... o barulho lembrava uma moto sendo acelerada em ponto morto. Mas estávamos longe de qualquer civilização e o som vinha do vento que invadia nossa barraca e sacudia a lona incessavelmente. A situação beirava o ridículo e nós só podíamos rir. Era o 14o dia de expedição, o 14o dia com precipitação e o 13o que essa precipitação era em forma de neve. Era junho e o verão ia chegar em 4 dias, mas o clima era de inverno. Os dias estavam frios, gelados para ser mas precisa, sendo a media da temperatura entre -5o e 5o. As tempestades constantes nos forçavam para dentro das barracas, dentro de nossos sacos de dormir.
Todos os dias, íamos dormir com uma pontada de esperança que o dia seguinte estaria com um céu limpo, azul, sem nuvens. Todos os dias acordávamos com vento ou neve. Alguns dias, a esperança se estendia até quando abríamos o zíper da barraca; a ausência de vento e neve nos fazia crer que era esse o dia. Mas era tudo ilusão. As nuvens ainda dominavam o céu e a calmaria era uma pequena brecha no tempo insano que estávamos tendo.

Parecia a Patagônia, mas por sorte o vento não era tão forte. E os ares gelados da terra ao sul estavam a milhares de km de distancia. Ali, estávamos na parte Norte da cadeia montanhosa Wind River, no noroeste do estado de Wyoming, EUA. Éramos 15 pessoas, 3 instrutores e 12 alunos. Mas nessas 2 primeiras semanas de curso a parte de ensinar e aprender ficou secundaria. O importante era nos mantermos secos e aquecidos ou relativamente aquecidos.
Meu co-instrutor Mike já havia estado ali mais de 10 vezes e essa foi a vez mais fria e com pior tempo em dias consecutivos que ele pegou. É... só nos restava rir e torcer por dias melhores.

29 de mai. de 2009

Mount Valhalla, Alaska

Tomava um chá bem quentinho quando uma gota caiu de meu copo na minha calça e imediatamente congelou.
Todo dia acordávamos com nossas águas congeladas dentro das garrafas. Somente conseguimos ter água em estado liquido na manha quando colocamos as garrafas entre nossos sacos de dormir. Fazia muito frio e no dia seguinte íamos escalar o Mount Valhalla e tudo que eu queria era entrar no meu saco de dormir para me aquecer o máximo possível. o para nosso acampamento.
Valhalla na mitologia nórdica é o local onde alguns guerreiros vikings, escolhidos pelo deus Odin, eram recebidos após terem morrido, com honra, em batalha. O Mount Valhalla é uma pirâmide de pedra com 3699 metros e diversas faces nevadas e é cercado pelos Glaciares Nelchina, Columbia e Harvard, no Alaska.
Acordamos as 6 da manhã com um vento surreal que aliado ao frio que estava, deixava nossa disposição tão baixa quando a temperatura daquela alvorada. Adiamos nossa escalada para o dia seguinte, que amanheceu sem uma nuvem no céu e vento quase zero. Era o dia perfeito! Colocamos nossos esquis e subimos para a base do primeiro desafio do dia: uma headwall de 180 metros e 50o de inclinação. A primeira cordada foi na frente e descobriu uma parede totalmente congelada, o que atrasou bastante nosso avanço. Mas chegamos ao colo e dali partimos para uma linda crista de mais ou menos 1.5km, que nos levaria ao cume do Valhalla. Eu no meio da corda, não guiei nada, mas me divertia com cada metro conquistado.
No início, a crista não apresentou muito trabalho, mas na medida que ganhávamos altitude, as dificuldades foram se apresentando maiores. A qualidade da neve alterava entre ótima para proteção e “nem tão boa assim”. 3 horas mais tarde, lá estávamos nós, numa linda crista, eu no meio de uma cordada, a 3.600m de altitude. O vento gelado tocava a nossa espinha e nos deixava tremendo de frio, isso mesmo com um céu de brigadeiro de tão azul e sem nuvem. Ainda nos encontrávamos a 500 metros do cume e todos se encontravam exaustos e os metros finais se mostravam como os mais difíceis do dia, com uma crista muito fina e uns 10 ou 20 metros bem verticais com gelo azul, azul. Eu que não havia guiado nada estava tranqüila para continuar, mas ninguém mais queria subir.
Demos meia volta e iniciamos nossa longa descida, que se demonstrou mais longa e trabalhosa do que pensávamos. Descer a headwall foi desafiante, o sol já não nos aquecia e o vento era constante e frio. A temperatura caia a cada segundo e nós nos movimentávamos com danças e pulos para nos aquecer. Ao mesmo tempo, nos mantínhamos alerta aos procedimentos que nos deixavam seguros.
Chegamos de volta ao acampamento cerca de 1 hora da manhã, com frio, fome e sono. E assim, voltei do Alaska sem nenhum cume, mas com muito aprendizado.

As cores do Alaska


Akira Kurosawa que me desculpe, mas a imensidão não é azul, é branca! Pelo menos no Alaska é assim. Alias, nem sei se esse filme é dele, mas me parece ser. A cadeia montanhosa Chugach é um mar de branco com alguns pontos negros das rochas que aparecem e as vezes o azul do céu. Mas vários dias, as únicas cores que vimos além do branco vinham dos nossos casacos coloridos, barracas verdes e equipamento em geral. Tivemos alguns dias assim: tudo branco. A nevoa era tão baixa que se juntava com o glaciar e você não conseguia ver metros a frente, e a luz era tão plana que a perspectiva desaparecia. Algo que é quase plano parece íngreme e vice-versa.
E assim passamos nossos dias no Alaska, num mundo de poucas cores, quase sem vida, mas que te surpreende a cada momento com sua beleza imensa e magnitude incomparável.

Viagem de Primeira

Foi uma viagem de muitas primeiras vezes: primeira vez no Alaska, primeira vez cavando uma cozinha na neve, primeira vez montando uma parede de blocos de neve contra o vento, primeira vez montando um iglu... Poderia enumerar muitas outras primeiras vezes, mas nada se compara com a primeira vez numa greta. Calma, não cai nessa greta não, desci controladamente.
Os glaciares são rios congelados em movimento e em locais onde a tensão e muito grande, umas fendas são formadas com o objetivo de liberar essa tensão, formando então as gretas que são tão temidas por montanhistas. Cair dentro de uma greta enquanto encordado não é nada agradável e para sair o montanhista que caiu ascende por corda fixa ou os companheiros tem que iça-lo/a. Cair numa greta sem estar com uma corda de segurança, pode significar um susto muito grande ou até a morte, dependendo do tamanho da greta e da queda. Por isso, andávamos sempre encordados, seja caminhando ou esquiando. O esqui era usado como meio de transporte para termos um objeto com uma maior massa e assim uma melhor flutuabilidade na neve.
Foi logo no inicio da expedição, acho que no primeiro ou segundo dia no glaciar. O dia amanheceu lindo e fomos em direção a uma mega greta que havíamos avistado do avião. Em meia hora estávamos ali, esperando as pessoas que estavam na frente da corda determinar uma área segura, perto da borda da greta para todos nós ficarmos.
Perímetro de segurança estabelecido, ancoragens montadas, cordas fixas e... não descemos. Não conseguíamos ver se estávamos em cima de um teto de gelo ou não e se estivéssemos, o exercício estaria comprometido.

Mas aproveitei uma das cordas fixas, cheguei na beirada e dei uma espiada lá dentro. A greta era enorme, uns 25 metros de comprimento, 5 metros de largura e 15 de profundidade; isso até onde conseguíamos ver, pois ela deveria ser bem mais profunda. As formações de gelo pareciam ter sido esculpidas por um artesão surrealista de tão lindas que eram. As cores viam em tons de azuis, brancos e um preto bem escuro das profundezas geladas da fenda.
Voltei ao meu grupo e demos a volta para o outro lado da greta, onde novamente estabelecemos o perímetro de segurança, montamos as ancoragens e fixamos as cordas. Ali sim estava seguro para descermos e com tudo pronto, logo me prontifiquei a ser a primeira a descer. O objetivo era treinar ascensão por corda fixa, mas eu queria mesmo era entrar naquele mundo gelado!

E assim desci, rapelando na corda fixa, até a ponte de neve que parecia o chão, mas não era. Me senti pequena diante da grandiosidade da greta. Somos realmente um sopro na história do mundo e essa história estava registrada nas paredes daquela greta, mostrando os milhares de anos que demorou para ela ser formada.