2 de nov de 2009

Sonhos Patagônicos: treinando para Chalten



Já havia escutado que quando você vai pra Chalten pela primeira vez, tem que reservar, pelo menos, mais uma temporada. O lugar é um vício e é difícil não querer voltar para lá imediatamente.
Comigo não foi diferente. Passei a temporada passada em Chalten (dez 08 - mar 09) e o lugar me contagiou tanto que passei o ano de 2009 me preparando para voltar para lá. E é isso que farei nesse próximo verão e para tal é necessário criar projetos mirabolantes para poder treinar.
E foi com Chalten na cabeça que parti junto com Bernardo nesse sábado para fazer 3 vias no Pico Maior de Friburgo. Ano passado havíamos feito os 4 cumes (Pico Menor, Médio, Maior e Capacete) em 1 dia. Esse ano, nosso objetivo era fazer a Arco da Velha (D4 6o VIIa E3, 700m), a Decadence avec Elegance (D4 5o VIIa (A0 VIIc) E2, 700m) e terminar com a Leste (D4 5o V (A0 VI+) E3, 700m), tudo em um dia.
O despertador tocou às 2:20 da manhã. Com relutância, saímos da cama, tomamos café e entramos no carro para ir até o Mascarim. Minha headlamp já demonstrava sinais de problemas sérios. Começamos a caminhada às 3:30, já com apenas uma headlamp, pois a minha quebrou. Chegamos na base da Leste às 4:10, nos equipamos ali, deixamos boa parte das coisas e nos direcionamos para a Arco, passando pela base da Decadence, onde deixamos mais coisas.


Da base da decadence, resolvemos ir pela pedra para evitar o mato e o costão molhado de acesso à base da Arco. Com uma headlamp só, o Berna subia um pouco e olhava para trás para eu subir. De pouco em pouco, ganhamos metros e chegamos na base da Arco às 5:30. Como ainda estava escuro, sugeri solarmos até P1 para eu usar a luz da lanterna dele. E foi isso que fizemos. Havíamos decidido que ele ia guiar a Arco toda, uma vez que ele conhece muito bem a via e eu não. Em P1, ele partiu ainda no escuro, mas com o dia amanhecendo. A via tava meio molhada, mas fomos subindo.

Chegamos na horizontal que estava um pouco molhada, mas era "gosma five ten" e não escorregava. Berna foi guiando e ao chegar no segundo grampo (que é um stubai bem velhinho), ele falou:
- Ainda bem que vou costurar e depois entrar no molhado.
Na mesma hora eu respondi:
- Isso quer dizer que eu vou descosturar e entrar no molhado, to ferrada!
Só pude rir.

Fomos subindo, com partes muito molhadas e outras partes nem tanto. Chegamos no crux e vimos que estava seco. O crux é sinistro, além de difícil, se o guia cair, vai quicar em um platô e continuar caindo. Nada agradável. Berna foi subindo com delicadeza e calma passando lindamente pelos dois cruxs e a passada delicada após os mesmos. As passadas são lindas e exigem muito trabalho de pé e acreditar em micro agarrinhas. Difícil e muito maneiro.
Achava que eu estava lenta e já pensava secretamente que não íamos conseguir finalizar as 3 vias de dia, o que era um problema, uma vez que só tínhamos uma headlamp. Mas ao chegar no final da Arco, vimos que eram apenas 9:45 (4 horas e 15 minutos após o início). Ficamos felizes e imediatamente começamos a rapelar pela Decadence. O rapel durou apenas 1 hora! Sensacional. Deixamos as cordas fixas nos últimos dois rapéis e desescalamos os últimos 10 metros até a base, onde comemos, bebemos e nos pusemos a escalar novamente, eram 11 da manhã.
Subimos solando até P3 e depois continuamos à francesa até P7. Fui costurando um grampo aqui outro lá até que não aguentava mais escalar, precisava descansar. Fiquei feliz quando as costuras acabaram e tive que parar e puxar o Berna. Dali, revezamos a guiada.
Subindo a decadence, meu corpo começou a reclamar. Meus dedos dos pé e calcanhares estavam doloridos com a sapatilha. Meus dedos da mão reclamavam de cada reglete que eu tinha que agarrar. Meu braço estava reclamando de um músculo que havia sido "puxado". Meu corpo todo estava meio que dormente. Determinação. Sabia que o Berna também sofria com a sapatilha e nenhum dos dois reclamava muito, apenas um comentário aqui, outro ali. Seguíamos adiante, sem pensar em parar ou desistir. Estávamos com o objetivo na cabeça.


Começou a pingar, mas ninguém falou nada. Era como se não falássemos, não estava acontecendo. Continuamos a subir, num ritmo rápido, numa corrida contra o tempo, ou melhor, contra a chuva. Íamos insistindo, até que não tinha mais como fingir que não estava molhando e tive até que colocar o anorak.
Esperamos um pouco, mas como o Berna tinha esquecido o anorak, resolvemos descer. Estávamos na base do crux da Decadence (P14), eram apenas 1:45 da tarde, 2 horas e 45 minutos depois de termos começado a escalar a Decadence, mas a chuva não deixava a gente continuar.
Rapelamos sem pressa, a chuva inconstante nos deixava com esperança de ainda poder escalar a Leste. Mas cada vez que ousávamos pensar que a chuva ia parar e a parede ia secar, ela voltava mais forte do que antes. A pedra encharcou, a base da Leste tinha várias piscinas e, a nós, só nos restava arrumar as coisas e voltar para a pizza do Serginho.
Não completamos nosso objetivo, mas estamos longe de poder reclamar, pois fizemos a Arco inteira e a Decadence quase inteira, um total de 27 enfiadas. E tínhamos disposição e cabeça para continuar se o tempo tivesse deixado. Foi um bom treino que deixou um gostinho na boca de precisar voltar para poder terminá-lo.