02/11/2009

Sonhos Patagônicos: treinando para Chalten



Já havia escutado que quando você vai pra Chalten pela primeira vez, tem que reservar, pelo menos, mais uma temporada. O lugar é um vício e é difícil não querer voltar para lá imediatamente.
Comigo não foi diferente. Passei a temporada passada em Chalten (dez 08 - mar 09) e o lugar me contagiou tanto que passei o ano de 2009 me preparando para voltar para lá. E é isso que farei nesse próximo verão e para tal é necessário criar projetos mirabolantes para poder treinar.
E foi com Chalten na cabeça que parti junto com Bernardo nesse sábado para fazer 3 vias no Pico Maior de Friburgo. Ano passado havíamos feito os 4 cumes (Pico Menor, Médio, Maior e Capacete) em 1 dia. Esse ano, nosso objetivo era fazer a Arco da Velha (D4 6o VIIa E3, 700m), a Decadence avec Elegance (D4 5o VIIa (A0 VIIc) E2, 700m) e terminar com a Leste (D4 5o V (A0 VI+) E3, 700m), tudo em um dia.
O despertador tocou às 2:20 da manhã. Com relutância, saímos da cama, tomamos café e entramos no carro para ir até o Mascarim. Minha headlamp já demonstrava sinais de problemas sérios. Começamos a caminhada às 3:30, já com apenas uma headlamp, pois a minha quebrou. Chegamos na base da Leste às 4:10, nos equipamos ali, deixamos boa parte das coisas e nos direcionamos para a Arco, passando pela base da Decadence, onde deixamos mais coisas.


Da base da decadence, resolvemos ir pela pedra para evitar o mato e o costão molhado de acesso à base da Arco. Com uma headlamp só, o Berna subia um pouco e olhava para trás para eu subir. De pouco em pouco, ganhamos metros e chegamos na base da Arco às 5:30. Como ainda estava escuro, sugeri solarmos até P1 para eu usar a luz da lanterna dele. E foi isso que fizemos. Havíamos decidido que ele ia guiar a Arco toda, uma vez que ele conhece muito bem a via e eu não. Em P1, ele partiu ainda no escuro, mas com o dia amanhecendo. A via tava meio molhada, mas fomos subindo.

Chegamos na horizontal que estava um pouco molhada, mas era "gosma five ten" e não escorregava. Berna foi guiando e ao chegar no segundo grampo (que é um stubai bem velhinho), ele falou:
- Ainda bem que vou costurar e depois entrar no molhado.
Na mesma hora eu respondi:
- Isso quer dizer que eu vou descosturar e entrar no molhado, to ferrada!
Só pude rir.

Fomos subindo, com partes muito molhadas e outras partes nem tanto. Chegamos no crux e vimos que estava seco. O crux é sinistro, além de difícil, se o guia cair, vai quicar em um platô e continuar caindo. Nada agradável. Berna foi subindo com delicadeza e calma passando lindamente pelos dois cruxs e a passada delicada após os mesmos. As passadas são lindas e exigem muito trabalho de pé e acreditar em micro agarrinhas. Difícil e muito maneiro.
Achava que eu estava lenta e já pensava secretamente que não íamos conseguir finalizar as 3 vias de dia, o que era um problema, uma vez que só tínhamos uma headlamp. Mas ao chegar no final da Arco, vimos que eram apenas 9:45 (4 horas e 15 minutos após o início). Ficamos felizes e imediatamente começamos a rapelar pela Decadence. O rapel durou apenas 1 hora! Sensacional. Deixamos as cordas fixas nos últimos dois rapéis e desescalamos os últimos 10 metros até a base, onde comemos, bebemos e nos pusemos a escalar novamente, eram 11 da manhã.
Subimos solando até P3 e depois continuamos à francesa até P7. Fui costurando um grampo aqui outro lá até que não aguentava mais escalar, precisava descansar. Fiquei feliz quando as costuras acabaram e tive que parar e puxar o Berna. Dali, revezamos a guiada.
Subindo a decadence, meu corpo começou a reclamar. Meus dedos dos pé e calcanhares estavam doloridos com a sapatilha. Meus dedos da mão reclamavam de cada reglete que eu tinha que agarrar. Meu braço estava reclamando de um músculo que havia sido "puxado". Meu corpo todo estava meio que dormente. Determinação. Sabia que o Berna também sofria com a sapatilha e nenhum dos dois reclamava muito, apenas um comentário aqui, outro ali. Seguíamos adiante, sem pensar em parar ou desistir. Estávamos com o objetivo na cabeça.


Começou a pingar, mas ninguém falou nada. Era como se não falássemos, não estava acontecendo. Continuamos a subir, num ritmo rápido, numa corrida contra o tempo, ou melhor, contra a chuva. Íamos insistindo, até que não tinha mais como fingir que não estava molhando e tive até que colocar o anorak.
Esperamos um pouco, mas como o Berna tinha esquecido o anorak, resolvemos descer. Estávamos na base do crux da Decadence (P14), eram apenas 1:45 da tarde, 2 horas e 45 minutos depois de termos começado a escalar a Decadence, mas a chuva não deixava a gente continuar.
Rapelamos sem pressa, a chuva inconstante nos deixava com esperança de ainda poder escalar a Leste. Mas cada vez que ousávamos pensar que a chuva ia parar e a parede ia secar, ela voltava mais forte do que antes. A pedra encharcou, a base da Leste tinha várias piscinas e, a nós, só nos restava arrumar as coisas e voltar para a pizza do Serginho.
Não completamos nosso objetivo, mas estamos longe de poder reclamar, pois fizemos a Arco inteira e a Decadence quase inteira, um total de 27 enfiadas. E tínhamos disposição e cabeça para continuar se o tempo tivesse deixado. Foi um bom treino que deixou um gostinho na boca de precisar voltar para poder terminá-lo.


28/10/2009

Heróis

Ano passado li o livro "The Mountains of my Life" (as montanhas de minha vida) de Walter Bonatti. Já nas primeiras páginas, esse italiano se tornou uma inspiração para mim, um herói.
Esse ano, depois de muito tempo procurando, consegui comprar o livro "Conquistadores do Inútil" de Lionel Terray. E esse escalador francês me conquistou com o primeiro parágrafo que divido com vocês:
"Toda minha vida foi dedicada às montanhas. Nasci nos pés dos Alpes, fui campeão de esqui, guia profissional, amador das grandes escaladas dos Alpes, e membro de oito expedições aos Andes e Himalaia. Se a palavra tem algum significado, eu sou um montanhista (mountaineerer)" - minha tradução
Mais um herói!

29/09/2009

Escalada no sangue



Um dia, um amigo e grande escalador falou que eu tinha “escalada no sangue”. Imediatamente, senti um certo calor subindo pelo meu corpo, daqueles que a gente sente quando um grande elogio é dirigido a você. Se alguém tivesse olhando para mim na hora, certamente teria visto um rosto iluminado e provavelmente enrubescido de felicidade.
Identifiquei-me prontamente com essas palavras e fiquei saboreando-as por um momento. Não discutimos muito sobre seu significado, pois ambos sentíamos a escalada em nossas veias e sabíamos que palavras não fariam jus a esse sentimento. Continuamos bebendo cerveja e jogando conversa fora.
Alguns meses depois desse primeiro contato com essa expressão, me deparei com outra expressão que traduz mais ou menos a mesma coisa. Foi uma frase que saiu no filme “The Wall”, com Serginho Tartari e Daniel Bonella: “a escalada, para muitos, é um esporte de louco. Para outros, um esporte de final de semana. E para poucos, um estilo de vida”.

Mas falar sobre o que é ter a “escalada no sangue” não é uma tarefa fácil e certamente será um desafio tentar traduzir em palavras um sentimento tão profundo, mas... mão no magnésio e vamos embora.

Comecei a escalar tarde, aos 21 anos, mas acho que sempre fui escaladora. Por isso, assim que comecei a escalar, me viciei. Sim, tenho que confessar que, ainda hoje (11 anos depois desse início), sou viciada em escalada. Me atirava nas pedras, nas vias sem pensar em conseqüências e fui aprendendo aos poucos como utilizar todo o equipamento disponível e a realizar os procedimentos quase que adequadamente. Com uma grande disponibilidade de tempo, escalava quase que diariamente.

Depois de 11 anos me atirando em diversos tipos de via, vejo que a escalada faz parte de quem eu sou e de como eu me defino. Tudo em minha vida, atualmente, gira em torno de montanhas, vias, escaladas e parceiros de aventuras. E vejo que ter e sentir a escalada nas veias vai além do grau que escalamos, quantas vias fizemos, com que frequência escalamos, quanta força temos no braço ou quão bom é nosso equilíbrio. Isso tudo faz parte do lado objetivo de escalar e que, na realidade, é facilmente ensinada e absorvida. É a parte mental, filosófica e espiritual da escalada que juntas formam a base de ter ou não a “escalada no sangue”.

Ter a “escalada no sangue” é amar o esporte, mas não se contentar em apenas faze-lo. É fazer da “escalada” um estilo de vida e abraçar com vontade e determinação as lições que tiramos de cada dia nas montanhas e atingir um equilíbrio espiritual que vem apenas com esse estilo de vida tão único. É saber que sua personalidade é grandemente definida como: “sou escalador/a” e ponto. E que se, por algum motivo, uma pequena parte disso é tirada deles, seria como arrancar uma parte vital de seu corpo, de sua alma.

Ter “escalada no sangue” é nunca se contentar com pouco. É ter o desejo de ir além, de se arriscar, de desafiar seus limites. É estar, literalmente, suscetível a grandes quedas e a recompensas incríveis e indescritíveis. É fazer a caminhada e chegar na base de uma parede, olhar para cima e se sentir pequeno, quase que impotente frente a grandiosidade da montanha. É sentir um frio imenso na barriga ao olhar a via, mas mesmo assim dar o primeiro passo para entrar na dança da verticalidade da escalada.

Para aqueles que têm a escalada correndo em suas veias, estar na frente de uma cordada é um método de meditação. Não existe outro lugar, hora ou atividade que estimule uma maior concentração ou um maior desligamento dos problemas e do mundo ao redor. Ignorando a fala do parceiro apreensivo, o escalador coloca a mente em outra dimensão e o foco se volta para a complexidade do momento: controlar a respiração, movimentos, equilíbrio e estado mental para passar um lance mais complicado... nada no mundo mais existe, apenas a dança vertical. A realidade das palavras vindo de baixo e da situação só atinge o escalador depois da liberação da adrenalina através de um grito, expiração profunda ou risos descontrolados após ter finalizado aquele movimento desafiador. É assim que construímos nossa personalidade, felicidade e ficamos mais perto de nos tornarmos seres completos.

É se sentir em casa nas montanhas, como em nenhum outro lugar do mundo e amar o sentimento de paz e tranquilidade que vem com o “estar e escalar” montanhas. Sentir a “escalada no sangue” é ter as montanhas na mente, no coração e na alma; sabendo que apenas escalando você tem a sensação de liberdade total, de segurança e acima de tudo de plenitude absoluta.

02/09/2009

Parceria em Montanha

Já faz um tempo que tento escrever sobre parceria na montanha. Mas são tantas coisas que quero falar, tantos sentimentos que afloram com esse conceito, que nem sei por onde começar, mas vou tentar.
Amo escalar e para mim grande parte do que gosto na escalada e da onde aprendo as coisas que tiro das minhas aventuras vem dos meus parceiros. Não apenas isso. Tiro boa parte da minha força e determinação das pessoas com quem estou escalando. Não como um vampiro que suga sem dar nada em troca; mais como um processo de simbiose, onde dois organismos tiram vantagens mutuamente sem que nenhum seja prejudicado.
As montanhas e principalmente a escalada tem um poder fenomenal de juntar ou separar pessoas. Os momentos que vivemos nos desafiando em suas paredes verticais nos fazem extremamente verdadeiros, honestos. Duas palavras que denotam como nos comportamos durante nossas jornadas pela verticalidade da escalada. Cada momento é vivido intensamente e os sentimentos que são despertados para com seu parceiro ou parceira são tão genuínos e fortes que conseguem unir duas pessoas (ou separá-las) de maneira que só mesmo na montanha conseguimos ver.
Cada vez que vou pra montanha com pessoas esse sentimento de parceria é renovado. Independente de com quem eu esteja, seja uma pessoa que considero “parceiro/a”, um/a amigo/a, ou uma pessoa que acabei de conhecer... nossas atitudes, conversas e o jeito que a escalada flui me faz pensar em “parceria em montanha”.
Interessante é que pelo tanto que já pensei, eu deveria ter conclusões mais definidas, ou frases mais elaboradas. O sentimento é na verdade, ao mesmo tempo, tão abstrato e tão concreto que me deixa sem as palavras certas para descrever o que penso sobre parceria. Acho que nesse caso, minhas experiências falam mais alto e as definições ficam para segundo plano. Por isso, acho que, vira e mexe, vou voltar a esse tema que me fascina tanto, mas por enquanto termino por aqui, com o coração cheio de vontade de falar mais, mas com o racional bloqueado. :)

Salathe Wall, Yosemite


Alguns números da escalada:
2 dias de preparação
1 dia içando haul bag
4 noites na parede
5 dias de escalada
35 enfiadas de corda
1.050 metros de escalada
57 horas escalando
45 litros de água
1a vez no cume do El Capitan
Não é comercial do Master Card, mas não tem preço!

Yosemite é umas "Mecas" mundiais de escalada em rocha. Escalador do mundo inteiro vem para o "valley" para serem desafiados nas imensas paredes de granito. Dois de seus cartões postais são o Half-Dome e o El Capitan ou El Cap, como é carinhosamente conhecido pelos escaladores. Queríamos escalar o segundo, que é o maior monolito contínuo em granito do mundo. Meu parceiro: Joe Frost. Nosso objetivo: a via Salathe Wall, umas das mais acessíveis do EL Cap, mas também uma das mais longas (se não a mais longa), com mais de mil metros de escalada contínua.
Chegamos ao Vale e logo decidimos entrar no nosso objetivo. Não encontramos ninguém que já havia escalado a via, então nos baseamos no que o guia nos falou, e começamos as preparações.

Os dias de preparação

Decidimos não levar fogareiro e por isso tínhamos que cozinhar toda a comida antes de entrar na escalada. Foram mais ou menos umas 6 horas cozinhando jantares e cafés da manha para 5 dias. Macarrão, arroz, xapate, etc... Ufa! Fora isso, precisávamos decidir os equipamentos que íamos levar: duas cordas, sendo uma estática, quase 3 jogos de equipamento em móvel, mais equipamento de escalada em artificial. Uiii, que peso! E para finalizar, água! Precisávamos estabelecer quanto íamos levar para a parede. Inicialmente decidimos por 2.5 litros por pessoa por dia, 25 litros no total.
Para acompanhar toda essa preparação, muita cerveja. Obviamente, a idéia não foi a melhor, pois diminuiu nossa eficiência e acabamos indo dormir sem parte das coisas prontas, mas nos divertimos muito.

Dia 0
Acordamos atrasados, com uma leve dor de cabeça e nos pusemos a trabalhar. Os 30 minutos que achávamos que ia demorar se estenderam por mais de 2 horas. Resultado: colocamos o haul bag nas costas por volta de meio dia, com um calor infernal de quase 40o que lembrava o verão carioca.
O interessante de big wall é que ela começa a “nos colocar no nosso lugar” antes mesmo de entrarmos nela. A logística, os dias de preparação e arrumação de material já nos deixam desorientados e nos fazem baixar a crista e entender que não vai ser fácil.

A trilha é curta e logo achamos a base da via e uma surpresa: cordas fixas que nos levaram ao Platô do "Heart Ledges", onde seria nosso primeiro bivaque. Essas cordas nos economizaram muito peso e logística e como não contávamos com elas, ficamos muito felizes.


Durante 4 horas enfrentamos o calor e a verticalidade do granito do El Cap para levar nossos víveres a Heart Ledges. Içar haul bag não é fácil, mas ganhamos os metros com eficiência e sem perceber o tempo passar, chegamos a nosso destino, onde deixamos as coisas e imediatamente nos pusemos a descer para onde tinha sombra.

O calor infernal nos fez repensar nossa quantidade de água e na volta para o carro encontramos com uns escaladores que tinham descido da parede. Eles falaram que tinham levado 6 litros por pessoa por dia. Nos entreolhamos apreensivos, pois isso significava 7 litros a mais por dia para a gente e agora sem a possibilidade de içar o peso no haul bag. Teríamos que levar esse peso extra com a gente, nas costas. Pensamos em 57 mil opções e decidimos levar um extra de quase 4.5 por pessoa por dia, carregando para cima mais 19 litros (ou 19 quilos) de água.

Dia 01
Depois de uma noite na base da via, começamos a escalada propriamente dita. Nosso objetivo era chegar a nosso haul-bag, 11 enfiadas acima quase todas em livre. Logo na primeira enfiada decidimos que não íamos içar a mochila com a água por estar muito pesada; quem estava jumareando teria que carregá-la.

A escalada fluía tranquilamente, mas subimos com o calor infernal que drenava nossa energia na medida em que sugava nossa água. A mochila muito pesada não ajudava em nada e acabou nos deixando bem mais vagarosos do que queríamos.
Achamos uma sombra e ficamos ali quase uma hora esperando o sol baixar. Dali eram apenas duas enfiadas fáceis até o platô, ao qual chegamos por volta das 6 da tarde. Mas nem pensar em descansar ainda, pois decidi escalar a próxima enfiada para agilizar nosso dia seguinte. Num misto de escalada em livre e artificial subi os próximos 45 metros e desci já limpando a enfiada.
A primeira noite na via foi sensacional. O platô era incrível e a vista maravilhosa. Nosso jantar, merecido, foi macarrão com sei lá o que. Depois de comer, nos entregamos a sensação de êxtase de poder descansar depois de um lindo (e quente) dia de escalada. Bons sonhos.... Bivaque 5 estrelas.


Dia 02

O segundo dia amanheceu sem uma nuvem no céu, mais um dia quente na pedra. Mas a empolgação ainda era grande e logo nos pusemos a nos mover. Subi pela corda fixa e puxei o haul bag, agora muito mais pesado, para continuarmos nossa empreitada.


A próxima enfiada foi guiada pelo Joe e é uma das mais temidas de toda a escalada. Depois de um pêndulo, é necessário escalar um 5o grau em off width sem proteção nenhuma por uns 25 metros até chegar na parada. Confesso que fiquei feliz de não ir, até porque o bichinho voou pela fenda, parecia que estava em um lugar super fácil, mas quando vi a fenda vi que não era nada disso. Ele escalou muito eficientemente e "tocou pra cima" pois sabia que não tinha opção de proteger mesmo. Impressionante.


Dali, seguimos alternando algumas guiadas em livre e artificial, passando por "the ear", uma chaminé apertada de 4o que foi guiada pelo Joe e coube a mim a pior parte: limpá-la numa mistura de jumareada, escalada com tênis, entalamento de corpo e peças na horizontal. Horrível!


Chegamos na primeira enfiada que seria toda em artificial e ela ainda tinha praticamente 50 metros. Parti com uma mistura de determinação e apreensão, sentimentos constantes em big walls. As proteções se demonstraram sólidas, mas trabalhosas. Ao passar um teto, me deparei com a parte que iria me dar mais trabalho, uma fenda bem fina, com algumas partes mais abertas, que seguia por mais uns 35 metros. Segui com cuidado e o tempo foi passando, fui vendo o sol descer e comecei a agilizar a escalada. Não parava para pensar muito, nem para testar as peças, queria chegar na parada antes de escurecer, pois já não tinha como puxar nada pela retinida e eu estava sem headlamp. Foi trabalhoso, mas cheguei na parada, já escuro e extremamente desidratada. Trouxe o haulbag no limite das minhas forças, muitas vezes pensei em parar e descansar, mas sabia que precisava tirar energia da onde eu pudesse pois tínhamos que continuar seguindo até o nosso próximo bivaque. Ele não estava longe, apenas uma enfiada, mas não sabíamos se essa seria difícil ou longa, o que acabou não sendo nem uma nem outra.


Chegamos no nosso bivaque as 10:00 da noite, depois de 15 horas escalando, mortos, mas felizes. Comemos o que conseguimos, o que, apesar da fome, não foi muito e mergulhamos num sono profundo. Bivaque 4 estrelas.

Dia 03
Acordamos em um lugar fenomenal: a "alcove": nosso bivaque que era uma mistura de platô, com totem, caverninha e alcova. Não nos demoramos muito e Joe começou a escalar por atrás do que seria um dos lugares mais loucos por qual já passei em escaladas, o El Cap Spire.



Nesse dia, escalamos durante 11 horas e chegamos ao próximo bivaque com luz e a necessidade de um descanso mais relaxado fez com que não continuássemos a escalar a próxima enfiada. Sabíamos que o próximo dia seria puxado e o mais longo, mas precisávamos ter um tempo para fazer "nada". Mas fazer nada em uma big wall significa arrumar equipamento, comer, mexer no haul bag, preparar nossa cama, pensar na logística do dia seguinte e organizar mais equipamento. Obviamente, nosso fazer nada demorou mais de uma hora, mas uma hora tranquila, sem a pressão de ter que escalar e chegar no próximo bivaque. Isso ficaria pra amanhã. Bivaque 2 estrelas.

Dia 04
Acordamos ainda na escuridão para o dia que seria o mais trabalhoso, cheio de enfiadas longas em artificial, uma headwall e um mega teto para serem "vencidos". O cansaço era grande, mas a determinação de continuar também o era. Big wall nos desafia inteiramente e sempre alcançamos o que pensamos ser nosso limite e nos surpreendemos ao ver que esse limite é extremamente "elástico" e, que na verdade, podemos mais do que pensamos. E era isso que estávamos testando, alcançando e provando. Continuávamos a subir, a escalar as paredes que ficavam cada vez mais verticais e mais complicadas e não pensávamos em outra coisa a não ser subir.
No limite do cansaço , do stress e da necessidade de trabalho em equipe, coisas simples se tornam complicadas e nos desafiam a viver em harmonia e parceria. Muitas vezes extrapolamos os limites e nos estressamos para no momento seguinte saber que precisamos um do outro e de trabalhar em conjunto para que a gente atinja nosso objetivo. Não é fácil e a convivência nessas situações e locais nos fazem ver que não alcançamos nada sozinhos.
Alternamos as enfiadas, eu com as enfiadas mais longas e complicadas e o Joe com as enfiadas mais curtas. Algumas das enfiadas dele acabaram não sendo tão simples como esperávamos e ele demorou bastante. Chegamos no teto que foi guiado pelo Joe e coube a mim a árdua tarefa de limpá-lo. Difícil é pouco para o que foi limpar esse teto enorme e com diversas passadas em horizontal, mas kmon. As enfiadas eram extremamente verticais e ligeiramente negativas, deixando as paradas complicadas e nada confortáveis.


A última enfiada do dia era mais um dos cruxs da via e coube a mim passá-lo à noite, na base da headlamp. Fiquei nervosa, apreensiva. Mas ao sair da parada e começar a escalar, o foco nas peças me fez quase esquecer a escuridão da noite e apenas pensava em ganhar os metros finais até o bivaque.
Esse bivaque, um 4 estrelas, era muito plano mas bem estreito e comprido e a noite foi impressionantemente confortável.

Dia 05

Acordamos sem pressa. Era nosso último dia na parede. A vontade de não fazer nada era enorme e foi difícil de motivar a se mover. Joe não se sentia muito bem e me ofereci para guiar tudo, mas ele não quis e guiou a primeira enfiada.

As próximas duas ficaram para eu guiar. Subir o El Cap era muito mais sonho dele do que meu e por isso deixei para ele a 35a e última enfiada da via.
Chegar no cume de uma via é indescritível, ainda mais de uma via que exige tudo e mais um pouco de você, que te desafia em todos os sentidos: psicológicos, físicos, comportamentais, etc.


Estávamos no cume do "capitão", do El Cap, depois de muita, mas muita escalada. Rimos à toa, curtimos o visual, a sensação de estar ali, e nos pusemos a descer, pois a descida era desconhecida e longa...
Mas valeu! Muito aprendizado! Muita energia!
Kmon!

19/08/2009

Acesso às Montanhas Pan-Americano

Fui convidada a vir ao Canadá pelo Armando Menocal para uma reunião de formação de um grupo / organização que trabalhe com acesso às montanhas a nível pan-americano. O Armando foi um dos fundadores do Access Fund, programa americano que visa garantir o acesso de escaladores a áreas de escalada e promove a conservação dessas áreas. Foi com base no Access Fund que o programa Acesso às Montanhas, da FEMERJ, foi criado, do qual sou a coordenadora. Bernardo Collares ia se juntar a mim, mas seu visto americano foi negado e acabei vindo junto com o Flávio Wanieswisk, que mora em Vancouver.
A reunião aconteceu durante os dias 12, 13 e 14 de agosto, em Squamish, no Canadá e contou com pessoas do Chile, Argentina, México, Cuba, Brasil, Canadá, EUA e Espanha. Outros países não puderam mandar representantes por diversas razões, dentre as quais, a negação de vistos americanos e canadenses chamou a atenção.
Durante esses três dias, os participantes descreveram os principais problemas de acesso de suas áreas, ações que estão sendo tomadas, vitórias e principais entraves para o desenvolvimento de um programa de acesso.
Dentre problemas de acesso, foram descritos os problemas com responsabilidade civil no Rio, situação política em Cuba (onde escaladores são presos e interrogados por 10 dias, apenas por escalarem), potencial de Cochamo (Chile) se tornar uma central hidrelétrica. Foram muitos problemas que foram descritos e diversas soluções foram propostas.
No final dos 3 dias, a organização Access Pan-Am foi criada com sócios fundadores de diversos países e país base ainda a ser definido.
O impressionante foi ver as pessoas extremamente engajadas em programas de acesso por todos os lados. E foi com orgulho que vi que nosso programa no Rio é o único programa de Acesso na América Latina atualmente. E isso contamos apenas com a dedicação de voluntários que tocam o projeto por amor às montanhas. E viva as montanhas!

09/07/2009

Eu e as Montanhas

Amo as montanhas. Cada vez que estou nelas, esse sentimento é renovado. Me sinto em paz e me alegro em saber que posso me surpreender cada vez que as visito e que não me canso com sua beleza.
Sim, estou em casa nas montanhas, sempre. Mas para me sentir completa, preciso escalar. Caminhar pelos vales cavados por rios e glaciares e andar até cumes deslumbrantes me traz muita alegria. Mas não se compara com os sentimentos em mim despertos quando escalo.
Cada vez mais me afirmo como “escaladora”. E não falo aqui de qualidade, não me importo o quão bem (ou não) eu escalo. Falo sim sobre minha própria identidade, sobre quem eu sou, o que me faz feliz e onde aprendo a viver. É, a escalada me traz “completude” e me ensina a ser um ser humano melhor. Cabe a mim apenas tentar aprender.