14 de mar de 2010

Sobre joelhos estragados e mentes cansadas


1 mês: 30 dias: 720 horas: 43.200 minutos: 2.592.000 segundos. Esse é o tempo em que estou em El Chalten para escalar, mas sem escalar. Cheguei em Chalten no dia 19 de dezembro, cheia de vontades, sonhos e desejos. Os planos eram muitos. Bom, considerando que é a Patagônia, tanto quanto podemos planejar. Isso porque o tempo aqui é um dos piores do mundo e ficamos sempre esperando uma brecha no tempo ruim ou uma “ventana” de tempo bom para podermos escalar. Aqui em Chalten verificamos que planejamento em escalada significa ter flexibilidade e jogo de corpo e todos os planos tem que ser mudados de acordo com o que o bom (ou mau) clima dita. A “ordem” aqui é repensar o planejamento a cada dia, a cada minuto, a cada segundo. E ir trabalhando de acordo com o que o contexto se apresenta e com quem você está.
Com essa idéia, viemos com sonhos de fazer algumas escaladas específicas. Chegamos com muito frio, quase todos os dias com temperaturas na cidade na beira de 0o , chegando inclusive a nevar na cidade em pleno Natal. E enquanto a chuva caía frequentemente na cidade, as montanhas se escondiam por trás de uma cortina branca de nuvens. Só podíamos deduzir que lá em cima estava nevando e muito. Foram diversos dias de tortura assim até que uma mini brecha no tempo ruim apareceu na previsão.
A instabilidade continuava e a brecha se movia de um dia para o outro até que se estabilizou no dia 29/12/09. Aparentemente seria um dia sem chuva, com muito vento e temperatura baixa. Eu e Bernardo nos organizamos para portear (levar) os equipamentos para um local de bivaque chamado Piedra Negra. Acordei com um dia lindo de doer: o sol brilhava contra um azul que não tinha visto há mais de 10 dias e o vento estava relativamente baixo. Mudamos nossos planos! Incluímos o equipamento de bivaque (saco de dormir, saco de bivaque, fogareiro, kit cozinha e comida para 2 dias) para dormir lá em cima e tentar alguma escalada no dia seguinte.

Assim partimos (eu, Berna, Wal, Show e Play) pelos 8 km de trilha plana até Piedra do Fraille e depois por mais 2 horas e meia de pura subida íngrime (1.000 metros de desnível) até Piedra Negra, nosso destino para a noite. No caminho, cruzamos com um grupo de europeus que nos avisou “calorosamente” que o termômetro deles marcava 0o. Eram 2 da tarde e o vento se fazia presente e a sensação térmica beirava o “(muito frio)2.” Ao chegar ao bivaque, nos deparamos com muita neve, muito frio e nenhuma disposição de passar a noite ali. Como sempre, assim que chegamos começamos a colocar todas as roupas que tínhamos para preservar o calor dos nossos corpos. De pouco adiantou, já que o frio era muito intenso. Eu e Berna nos entreolhamos e pensamos que naquelas condições era impossível escalar e assim não havia sentido permanecer ali. Escondemos os equipamentos que íamos deixar embaixo de uma pedra e rapidamente nos pusemos em movimento: para baixo, para o “calor” da cidade e o aconchego do bar do Seba.
Os dias foram passando e o tempo só fazia piorar. As únicas janelas que víamos eram as de vidro, nas paredes das casas. E enquanto o bom tempo não vinha, continuávamos a curtir os amigos brasileiros e argentinos.
Vir para Chalten é isso: é redefinir o significado da palavra paciência. A espera colocava todos com os nervos da pele e o que reinava era a ansiedade. Começamos a ver “brechas” ou “ventanas” onde sabíamos, no fundo, que não existiam. Foi assim que, nos primeiros dias do ano, resolvemos subir a Polacos, um bivaque no Vale do Torre. A idéia era tentar alguma coisa na Face Oeste do cordão do Fitz Roy ou então alguma escalada mais baixa, como a da Media Luna ou do El Mocho. Eu e Berna nos organizamos e subimos para Bridwell.
Bridwell (ou De Agostini como é oficialmente conhecido) é um acampamento a duas horas de Chalten, na beira da Laguna Torre. Ali montamos a barraca e dormimos para sair no outro dia para Polacos. No dia seguinte, começamos a subida não muito tarde nem muito cedo. Vinil, Michele e Rafa nos acompanharam por parte do percurso, gravando algumas imagens.
Chegamos ao primeiro glaciar e ele estava um pouco, mas não muito, mudado. Glaciares são muito interessantes pois, como todo rio, está em constante movimento e por isso sujeito a grandes mudanças em pouco tempo. Mas essa parte não demonstrava uma mudança muito grande do ano passado e seguimos com facilidade até a parte da corda fixa. Subimos por ela, alcançamos a morena, para atingir o glaciar “de cima” que é, na verdade, o Glaciar da Adela. Esse também não nos mostrou uma mudança muito grande e ali nos despedimos dos nossos três amigos que tinham que voltar a Chalten ainda naquele dia.
Berna e eu seguimos e decidimos buscar um caminho mais direto a Polacos, sem ter que ir a Niponinos (outro bivaque). Se conseguíssemos, cortaríamos uma hora de caminhada no total. Seguimos por caminhos novos, desbravando as morenas e o glaciar que se mostravam ora amigáveis ora insuportáveis. O pedreiro para subir para Polacos é um dos piores da região e seguíamos com pedras e cascalhos deslizando sobre nossos pés e muito cuidado para não nos machucarmos. Escolhemos um lugar para subir, mas era errado e tivemos que perder uns 100 metros de altitude para chegar a um bom platô, onde poderíamos seguir para a esquerda com mais facilidade. A decisão de descer os poucos, mas árduos, metros não foi fácil, mas a tomamos mesmo assim.
De volta ao platô, seguimos com maior facilidade até encontrar o caminho certo e chegarmos a Polacos. Uma agradável surpresa nos esperava: o melhor lugar para dormir estava desocupado e “esperando” por nós. Nos organizamos ali mesmo: comemos e nos pusemos prontos para dormir. Eram 6 e meia da noite ou da tarde. Dali até as 9 e meia, quando finalmente pegamos no sono, avaliamos o clima: muito vento e neve. Mas a previsão dizia que ia melhorar de manhã.
Dormimos e acordamos as 5 e meia com o vento e a neve ainda presentes. Dois doidos passaram pela a gente gritando: “o sol”. Só pudemos rir e voltar a dormir. Aquele não era tempo para escalar e sim para ficar no quentinho dos sacos de dormir e de bivaque. Mais tarde, ao acordar definitivamente, o vento e a neve ainda caindo, entocamos os equipamentos que ali íamos deixar e começamos a voltar para Chalten. Escalada... nem pensar. Ainda.
Os dias continuavam ruins. O jeito era escalar na cidade e fazer as caminhadas que a região oferece. Mas era difícil motivar a fazer qualquer coisa e a mente seguia com a previsão e nas montanhas que ainda se escondiam atrás de uma espessa cortina de fumaça. Vários amigos se motivavam mais do que eu. Subiam e desciam as diversas trilhas de Chalten e os joelhos começaram a reclamar, a estragar. Na medida que o corpo e os joelhos eram maltratados, a mente se colocava cansada. Cansada de esperar, cansada da ansiedade que reinava e dos humores que flutuavam, cansada de ter esperança.

E a vontade de subir continuava. Eu particularmente não tinha muita vontade de escalar as vias esportivas da cidade, mas não precisava muito para querer subir. Com isso, Sblen, Berna e eu subimos para Piedra Negra para tentar escalar a via Fonrouge-Comesaña, que é a via de conquista da Guillaumet. Play e Show também subiram com a gente para entrar na mesma via.
Dormimos bem, eu e Berna bivacando e os outros três em uma barraca. Acordamos cedo e partimos para cima: mais 500 metros de desnível até a base da via. No início do neveiro Play e Show tiveram que descer. Eles haviam decidido não levar as piquetas para irem mais leves e por questões de segurança era impossível de subir o neveiro sem elas. Eu, Sblen e Berna continuamos até a base da via. Novamente, chegamos onde começa a parte de escalada em rocha e o vento era muito forte. A precipitação que, segundo a previsão, já era para ter acabado, continuava. Nevava e junto com o vento que soprava forte, nos sentíamos em uma das maiores tempestades que podíamos pensar. Esperamos 5 minutos até decidir que descer era a melhor (ou única) opção.
Chegamos em Piedra Negra e Play e Show dormiam na barraca. Arrumamos as coisas rapidamente e tocamos, outra vez, para baixo. Outra tentativa “frustrada”. E as aspas aí caem muito bem. Porque, na verdade, cada subida gera um aprendizado diferente, atingindo ou não nosso objetivo e realmente penso que tudo na Patagônia é válido. Desço para Chalten como uma pessoa melhor, ou ao menos gosto de pensar assim.
E o tempo ruim continuava. Os amigos começaram a ir embora, de volta pro Brasil. Alguns frustrados por não terem podido escalar, fazer a volta ao gelo, ou qualquer que tenha sido seu objetivo. Outros com muito aprendizado na bagagem. Todos com o corpo e os joelhos cansados e estragados. E nós, seguimos em Chalten, esperando ainda por uma “ventana”, que sabemos que vai chegar.... E a curto prazo, a mente se põe cansada; mas a longo prazo, ela certamente está mais forte e nós estamos mais preparados para o “ataque” ao nosso objetivo.


9 de mar de 2010

O que te motiva?!



Uma boa amiga e grande pessoa tem um blog chamado “O que tem motiva?”.
Não é uma resposta fácil de atingir. Essa temporada na Patagônia, minha segunda, me ensinou muito sobre o que me motiva. Cheguei em dezembro, com motivação 110%. E terminei a temporada com perto de 10% de motivação de subir e escalar. O que aconteceu nesse período para que chegue a esse final será descrito em diversas postagens que farei nas próximas semanas.
O princípio e meio da temporada se mostraram horríveis: muita chuva, muito vento e temperaturas baixas. Sim, é a Patagônia, mas essa temporada estava atípica e se demonstrava como uma das piores dos últimos 10 anos, segundo os locais. Foram 50 dias sem nenhuma brecha no tempo ruim, nenhuma “ventana”. Algumas “pseudo” brechas apareceram na previsão e em todas essas nós subíamos a montanha a tentar alguma coisa. Ou, ao menos, a se movimentar e manter a forma física e mental.
Até que meio de fevereiro chegou e com ele o tempo bom. Foram uns 20 dias de tempo bom, com poucos dias ruins entre as “ventanas”; e esses dias ruins nem eram tão ruins assim; na verdade, eram melhores do que os dias “bons” em dezembro e janeiro. Os primeiros dias da ventana foram amplamente aproveitados, mas aí chegou a hora dos meus parceiros irem embora pro Rio e eu fiquei sozinha em Chalten.

A ida de meu parceiros de volta a casa foi alinhada com uma nova lesão no meu tornozelo. Não estava muito ruim, mas também não estava muito bom. Entre pensar em subir nos dias maravilhosos, descansar meu pé, buscar parceiros, trocar experiências, escolher objetivos, arrumar a mochila, caminhar pesada, entre várias outras coisas, minha motivação foi diminuindo até que chegou a quase zero.
É claro que me martirizava por não subir com um clima tão bom e dias tão lindos. Mas tive que entender que a temporada para mim já havia se acabado. Não foi fácil, mas me dei conta disso e consegui relaxar. Ajudou o vento forte que voltou a soprar nos meus últimos 3 dias em Chalten.
Agora o que me motiva?! Que pergunta difícil. Sei que Chalten por si só já me motiva muito: a treinar, escalar, melhorar como escaladora e como pessoa. Mas sei que não é apenas a montanha ou a escalada que me motiva. Acho que é a experiência toda e para que minha experiência seja plena necessito de coisas que vão além da escalada em si. Passa por aventura, pelo desejo de conhecimento, pela vontade de tocar a rocha e fazer cume, pelo desbravamento da natureza e de quem sou, e acima de tudo, passa por amizade e parceria. Cada vez mais me dou conta que quero estar na montanha com meus amigos, com meus parceiros. E que minha experiência e motivação está muito ligada a com quem estou na montanha.
De qualquer forma, acho que os relatos que farei sobre essa temporada poderão explicar um pouco mais sobre o me motivou durante esse tempo... Espero que gostem. Kmon!
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