29 de mai de 2009

Viagem de Primeira

Foi uma viagem de muitas primeiras vezes: primeira vez no Alaska, primeira vez cavando uma cozinha na neve, primeira vez montando uma parede de blocos de neve contra o vento, primeira vez montando um iglu... Poderia enumerar muitas outras primeiras vezes, mas nada se compara com a primeira vez numa greta. Calma, não cai nessa greta não, desci controladamente.
Os glaciares são rios congelados em movimento e em locais onde a tensão e muito grande, umas fendas são formadas com o objetivo de liberar essa tensão, formando então as gretas que são tão temidas por montanhistas. Cair dentro de uma greta enquanto encordado não é nada agradável e para sair o montanhista que caiu ascende por corda fixa ou os companheiros tem que iça-lo/a. Cair numa greta sem estar com uma corda de segurança, pode significar um susto muito grande ou até a morte, dependendo do tamanho da greta e da queda. Por isso, andávamos sempre encordados, seja caminhando ou esquiando. O esqui era usado como meio de transporte para termos um objeto com uma maior massa e assim uma melhor flutuabilidade na neve.
Foi logo no inicio da expedição, acho que no primeiro ou segundo dia no glaciar. O dia amanheceu lindo e fomos em direção a uma mega greta que havíamos avistado do avião. Em meia hora estávamos ali, esperando as pessoas que estavam na frente da corda determinar uma área segura, perto da borda da greta para todos nós ficarmos.
Perímetro de segurança estabelecido, ancoragens montadas, cordas fixas e... não descemos. Não conseguíamos ver se estávamos em cima de um teto de gelo ou não e se estivéssemos, o exercício estaria comprometido.

Mas aproveitei uma das cordas fixas, cheguei na beirada e dei uma espiada lá dentro. A greta era enorme, uns 25 metros de comprimento, 5 metros de largura e 15 de profundidade; isso até onde conseguíamos ver, pois ela deveria ser bem mais profunda. As formações de gelo pareciam ter sido esculpidas por um artesão surrealista de tão lindas que eram. As cores viam em tons de azuis, brancos e um preto bem escuro das profundezas geladas da fenda.
Voltei ao meu grupo e demos a volta para o outro lado da greta, onde novamente estabelecemos o perímetro de segurança, montamos as ancoragens e fixamos as cordas. Ali sim estava seguro para descermos e com tudo pronto, logo me prontifiquei a ser a primeira a descer. O objetivo era treinar ascensão por corda fixa, mas eu queria mesmo era entrar naquele mundo gelado!

E assim desci, rapelando na corda fixa, até a ponte de neve que parecia o chão, mas não era. Me senti pequena diante da grandiosidade da greta. Somos realmente um sopro na história do mundo e essa história estava registrada nas paredes daquela greta, mostrando os milhares de anos que demorou para ela ser formada.

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