14 de abr de 2009

S de....



S de SIM, vamos tentar escalar! A ventana era bem meia boca, uma brecha entre dois dias de vento e chuva. Mas a 5ª feira prometia ter, mais ou menos, 12 horas de tempo bom com o vento moderado. E depois de quase 20 dias com neve, chuva e vento, essa era nossa chance!

S de SINTONIA. Não chegou a ser uma parceria, mas a sintonia estava rolando. Eu e a Gabi tínhamos ido ao Passo Superior juntas e com toda a confusão que rolou, acabamos criando uma sintonia e amizade, o que nos levou a querer escalar juntas.


S de SENDERO, que significa trilha em espanhol. A trilha já estava marcada em minha mente, mas era a primeira vez que ia sem alguém que a conhecia melhor do que eu. Estava inquieta. O primeiro glaciar passou sem muito problema, mas o segundo glaciar se mostrava bem diferente. A ponte sobre o primeiro rio havia caído e demoramos um bom tempo buscando um novo caminho. O vento era tanto que foi me empurrando bem sem que eu percebesse. Ao me dar conta, estávamos bem mais a direita do que deveríamos. O glaciar perto de Niponinos (um bivaque avançado) se encontrava com muito mais gretas, nos mandando para lá e para cá, num vai e vem para desviar delas. Depois de Niponinos, a subida até o nosso bivaque (o mesmo do Claro de Luna), demorou 2 horas e 10 minutos, indo num ritmo tranqüilo e conseguimos chegar ali ainda com luz, 8 horas depois de ter saído de Chalten.

S de SATISFAÇÃO por estar na montanha, dormindo sob as estrelas e o olhar constante do Cerro Torre e seus satélites. Satisfação de ir dormir tranqüila e na paz que só as montanhas nos trazem.

S de SERENA. Foi como a noite foi. Depois de oito horas de caminhada com vento forte, a escuridão trouxe consigo a calmaria de uma noite sem vento e relativamente quente. O bivaque, meio torto e com pedras no chão não impediram uma noite de um sono tranquilo.

S de SUBIR. O despertador nos acordou as 3:30 da manha. Comemos, organizamos as coisas e uma hora depois começamos a aproximação para a base da via. As duas horas e meia previstas se transformaram em quatro de muito toca pra cima. O vento, o frio e a escuridão tornaram tudo mais complicado. Foram diversas passadas de escalada, muito cascalho e neve para subir.

S de SURPREENDER. As informações que tínhamos era que não necessitávamos piquetas ou grampons. Mas as condições em constante mudança nessas montanhas se demonstraram diferentes e nos surpreendeu uma neve congelada e muito escorregadia. Ou seja, muitos degraus foram cavados para podermos subir. Como a Gabi tinha mais dificuldade e andava mais devagar do que eu, eu ia na frente com uma pedra cavando os degraus e ela vinha atrás com a única piqueta que tínhamos. Me surpreendi com minha tranqüilidade de subir com tênis, sem grampons, sem piqueta e cavando os degraus com uma pedra.

S de SURREAL. A base da via era na verdade lá em baixo na face leste. Nós subimos pela face oeste até o colo entre a Saint Exupéry e a de la S, onde começamos a escalar. Nesse exato ponto, o frio e o vento eram tão intensos que cogitamos desistir, mas persistimos pois sabíamos que a face leste seria mais protegida do vento e estaria com sol. E assim, parti para a primeira enfiada. Minha suspeita estava certa e parei no primeiro platô com sol e sem vento para tirar a Gabi do frio. A diferença de temperatura era surreal e pela primeira vez no dia começamos a relembrar o que era se sentir bem na montanha.

S de SERÁ que é por aqui ou por ali? Depois de uma curta e fácil enfiada, chegamos na base das enfiadas finais para o cume. Ali, víamos a aresta nordeste, uma chaminé e fissuras à direita. Nossas informações diziam que as fissuras era a melhor opção, então comecei a escalar ali mesmo. Foram 70 metros de fissuras, fendas, off widths, chaminé, alternando boas proteções com outras mais duvidosas até que parei em um platô e coloquei a Gabi em segurança.

S de “SAIR PELA TANGENTE”. Dessa reunião, tentei ir pela direita, mas resolvi sair pela tangente e pegar a fenda da esquerda. Uns dois metros de artificial me levaram a base de uma fissura de dedos de 6ª+ (grau francês), a qual escalei e protegi como consegui. A cada passada pensava que a via era para ser um 5+, mas como já estávamos alto, quase no cume, continuava a subir.

S de “SINTO MUITO”, mas a fissura acabou, os móveis acabaram e o tempo se esgotou. É hora de descer!

S de SUSPENDER a escalada. Estávamos a uns 50 metros do cume, mas não sabia mais por onde ir. Tentei fazer um pêndulo que me levou a fissuras ainda mais difíceis, esparsas e não tão boas para proteger, nada atrativo.

S de SABEDORIA. Nem sempre podemos chegar ao cume. O importante é ter a sabedoria e tranqüilidade para poder dar meia volta e descer com calma, pois o caminho até Chalten é longo. A montanha estará aí para que possamos, mais uma vez, tentar subi-la.

S de SINISTRO que foi a volta. A chuva e o vento começaram ainda antes de chegar em Polacos, a mais ou menos 25 km de Chalten. Não podíamos parar, pois tínhamos que chegar a Chalten ainda essa noite. Cruzar o glaciar com um vento ainda mais sinistro do que quando viemos foi uma aventura que não gostaria de passar de novo. Tombos, tropeços e medo de cair em gretas nos dominavam, mas não ousávamos parar. Cada segundo sem se movimentar era tempo suficiente para que o frio se apoderasse de nosso corpo. Além disso, queríamos cruzar o glaciar ainda com luz e apenas nos faltavam 1 horas e meia.

S de DE LA S... voltarei, um dia e quizas haré la cumbre!!!

S de SOUT no SEBA. 23 horas depois de ter acordado no bivaque, chego de banho tomado, mas ainda encharcada no Sebá, para a última noite de Stout em Chalten.

S de SAUDADE que já começou a bater sem nem ter ido embora. Saudade desse pueblo chiquito que me conquistou no momento em que cheguei. Tchau, Chalten, até a próxima temporada.

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